08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Professores, eu vos perdoo

Professor Lucas Dias
| Tempo de leitura: 2 min

Detentores do trabalho intelectualizado, pontes para o suposto saber e, muitas vezes, carentes sedentos de decisões sábias; estes são os professores – almas voadoras que, em todos os dias de suas vidas, têm as asas podadas pelo sistema e também pelo cansaço. É evidente que estes possuem a alma nobre; são seres frágeis e um tanto arrogantes, pertencem às mais elevadas patentes da evolução humana. Porém, não pretendo romantizar o feriado da carreira mais crucificada do escravismo contemporâneo. Quero somente manifestar, publicamente, meu perdão, aqueles que, durante toda a minha vida me infectaram com o vírus mortal do desejo de justiça social.


A primeira a deixar o purgatório será a profa. Lea, que na antiga terceira série do ensino fundamental, deu-me um belo livro ilustrado sobre a história do descobrimento do Brasil e respondia, com muita paciência, todas as minhas mirabolantes perguntas infantis (como, por exemplo, “em que ano inventaram as cores?”). Profa, a sra está perdoada. Anos mais tarde, a profª. Silmara me socorreu no reforço em língua portuguesa prometendo-me uma caixa de chocolates – caso eu tivesse êxito na disciplina – mas, no meio do caminho a recompensa se tornou obsoleta quando a mesma me apresentou a carga dramática de Augusto dos Anjos, um incrível poeta do simbolismo brasileiro, que saberia narrar com maestria à vida de muitos outros educadores. Profª. a sra. também está perdoada.


Ao mestre José Carlos e sua didática certeira, à profª. Línia e sua sensibilidade quase que mediúnica e também à profa. Andréia, que me fez apaixonado por educação e seus perrengues, à profª. Marcia Reis, mineira de fibra que me fez capaz de enfrentar desafios com os pés no chão e os olhos fixos no futuro. A partir de agora todos vocês estão livres das culpas que eu lhes atribuía, estão todos perdoados. Perdoo também todos os demais mestres que os nomes já me fogem à memória, hoje sou um turvo reflexo das mais gloriosas lembranças que tenho de todos vocês e hoje consigo enxergar, perfeitamente, em meio a tanta penumbra, o meu papel nesse meu mundo construído por vocês.


E, por fim, aos emblemáticos professores da nossa cidade, Sidnei Cruz e sua esposa Maria Thereza, peço, por favor, que me perdoem. Perdoem a mim e também a tantos outros que ainda tentam, incansavelmente, conquistar espaço nessa vida através dessa profana carreira e que, nem sempre, conseguem serem como vocês foram, um dia. Mantenham-se vivos para todo o sempre, pois, como disse o poeta, ”e o meu medo maior é o espelho se quebrar...”. Feliz mês dos professores.