Nestes tempos bicudos que atravessamos, em que não se sabe mais o que é o bem ou o mal, em que não se pode confiar no homem sem desconfiar do político e vice-versa, não há parâmetros para a moral ou para a imoralidade, ética virou uma palavra antiquada, relegada aos empoeirados livros de filosofia, a vida virou um Deus nos acuda e já nem sabemos se tudo é permitido, com Deus ou sem Deus, ou nada é proibido.
Deus é o Absoluto que o homem não compreende e em que crê por falta do Absoluto. Como são belos os resíduos! Onde começa o humor, onde termina a filosofia, o vazio, a vida? Porque espero muito sofrimento na vida, tenho esperança. O homem uma vez, possivelmente, foi um réptil. Belos tempos! Todo mundo já viu uma lagartixa na parede. Alguém já pensou na humanidade vendo uma lagartixa na parede? Eu, homem, talvez não veja o universo com os olhos de uma lagartixa. O que é o mal? Não julguemos: somos todos réus no escuro tribunal da existência. A morte é uma sublime nostalgia. Imagine-se no espelho sendo roído pelos vermes. A eternidade é uma ideia. Se pudesse evoluir, seria muito mais interessante. Um dia chegaremos à Pré-História. O mundo só existe se eu o penso, mas, de tanto pensá-lo, deixa de existir. A lucidez nos ensina a não ver a lucidez. O universo é uma ideia, um novelo desfiado. Se fosse possível o homem evoluir, não evoluiria. Se o mundo tivesse profundidade, que seria do abismo? A História é uma velha sentada à porta contando histórias.
O homem perde a razão diante da beleza e a reconquista, passo a passo, diante da feiura do mundo. Em torno do que se convencionou chamar de absoluto, o que quer que seja e que pode ser a essência da poesia, giram as mariposas do que se convencionou chamar de humano. Nascido com a língua enrolada e com a cabeça fraca, com dificuldade de formular qualquer pensamento, dirigi-me à poesia e me curei e nunca me senti tão desgraçado e tão feliz. Além da vida, de que não preciso mais nada, a arte me ensina a possibilidade da morte. O poema é o tempo concreto, vulnerável, em que penetramos como nos órgãos de um corpo humano, pingando sangue, enquanto o julgamos uma abstração ilusória. O poema nos devolve a nós mesmos, oferta-nos a beleza, atributo do universo que teimamos em renegar. Todo homem é poeta, mas é também um covarde e se deixa estrangular pelo grito que traz na garganta.
Todo poema é um funeral onde se enterra o humano, que não existe, para que o sublime exista. A poesia, a música, toda beleza é inútil. Você come linguiça, no entanto, porque lhe dá prazer e então diz que essa linguiça é útil, mas você pode viver e morrer sem ela. Se não fosse a arte, que nos ensina a morrer, já teríamos nos matado. A arte é o êxtase, mas o homem, fruidor da arte, é demasiado humano.
A arte deveria ser sem humor, sem vícios. Felizmente a impureza impera. Sou um deus se sou um artista e sou um demônio quando me submeto à minha criação. Uma obra de arte deveria ser tão perfeita que, fruída, se destruísse. A arte, quanto mais se aproxima da perfeição, mais anula o seu criador. A astúcia da arte esconde a própria astúcia como uma serpente, para que, quando mordido, você já tenha o veneno no sangue. Há críticos que leem um texto como se praticassem uma metafísica das entranhas.