10 de julho de 2026
Articulistas

Água no fogo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Cadela, precisava a desgraçada se embeiçar com o Leonel? Também ele,  cachorro, amigo traidor, desses que vivem na casa da gente, comem na mesa da gente e, depois, pegam a mulher da gente. Cadela ela, cachorro ele, uma grande cachorrada, que os  dois ardessem no mais canino dos infernos, traíras!


Agora, separado e abandonado, Barroso bebia a desgraça  pesada que a mulher lhe pusera na cabeça. Mais uma madrugada no boteco, mais um gole grosso, o último, na cachaça mineira. Despediu-se do Paçoca, companheiro de fossa e de pinga, ligou a ignição, fez o sinal da cruz, ajeitou o corpo e  o cinto de segurança e acelerou  com o cuidado de quem, embora  bêbado, guardava um fio de consciência.  Nenhum perigo, o carro, fiel companheiro de todas as noitadas, foi desenhando com facilidade o trajeto mais que   decorado.


Morava na pensão da Dona Alcina, uma senhora, sempre muito pintada,  de boca vermelha e  cabelos ruivos. Ela fazia questão de esperar o Barroso, faço um café rapidinho e depois a gente conversa um pouco, era o que  sempre dizia. Numa dessas ocasiões, ele, não lhe percebendo a intenção, sentou-se com ela no sofá, esperando a água ferver. Então sentiu a mão da intrometida acariciando o que não devia, o que é isso, meu Deus! – assustou, quis dali sair, mas logo se viu ferido nos brios de macho: nada disso, homem que é homem não  nega fogo,  uma   vergonha fugir de mulher querendo, tinha sim que cumprir o dever, cabra que é cabra  não foge de encrenca. Então foi direto de língua na boca vermelha, rolaram pelo chão, ela soltava gemidinhos agudos, ele não  soltava nada, tudo preso, tudo amolecido, uma puta  duma vergonha. Isso nunca aconteceu comigo, foi o que conseguiu explicar, acho que bebi   manguaça demais.


Desistiu uma ova! Dona Alcina não era mulher de se dar por  derrotada,  afinal  sempre despertara fogo nos homens, não seria um bêbado  que lhe faria tal desfeita, que esperasse,  não escaparia, prometia. Na seca em que estava, tinha alternativa? Era pegar ou pegar.  Então, continuou esperando por ele, em  outras bêbadas madrugadas, sempre prometendo cafezinho. Envergonhado, Barroso  ficou esperto, não caio mais nessa de esperar  água ferver,  um desgraçado sem espada  pode entrar em guerra?, foi o que pensou, uma forma de se castigar.  Por isso, mal entrava,  subia direto  para o  quarto, ignorando a insistência  da boca vermelha.


Paçoca, ouvindo a desgraça do parceiro até tentou aliviar o sofrimento. Barrosão, não se chateie, meu amigo, todo mundo sabe que, em bebedeira, qualquer ferro vira borracha mole. O pretendido consolo, saiu pela culatra e acertou em cheio a dignidade flácida do companheiro. “Borracha mole”, era isso o que ele era, uma vergonha amolecida, foi o que, humilhado, Barroso respondeu.


Mudou para outra pensão. Fez questão que fosse no lado oposto da cidade. Primeiro, cuidou de saber se era dono ou dona o proprietário do negócio; depois, assegurando-se de que era homem mesmo, procurou saber se era desses  que só gostam de mulher. Dúvidas sanadas, mudou-se, sentindo-se mais protegido. Agora esqueceria de vez aquela maldita velha pelancuda de boca vermelha.


Ele esqueceu, mas o carro não. Viciado no trajeto decorado, o carro insistia em voltar, todas as noites,  à pensão de dona Alcina. Só depois que descia do veículo, Barroso percebia o engano mais uma vez cometido. Bosta! Tinha que acabar com aquilo, mas como fazer o carro automatizar o outro caminho, o da outra pensão? Foram dez anos morando ali, repetindo o mesmo trajeto, agora precisava apagar tudo isso da memória daquele carro bêbado e teimoso.

O pior de tudo é que nem sempre dava tempo de sair de fininho.  Dona Alcina, conhecendo o ronco do motor,  pulava rápido da cama e, esperançosa, abria a janela com um sorriso vermelho: Entra, querido, vou pôr a água pra ferver, rapidinho, rapidinho...

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br