10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

CRÍTICA MODERNA DAS PROPOSTAS BÍBLICAS - Primeiro Ato da Criação

Venício Augusto Francisco
| Tempo de leitura: 3 min

No princípio criou Deus o céu e a Terra (GN. 1.1).

Questão: o céu a que se refere esse texto bíblico seria o suposto lugar no universo, onde Deus tem o seu trono? Se não é, o que seria o céu? Que sentido se dá a isso? A tradição religiosa não faz muito sentido, pois afirma, literal e taxativamente, ser o céu a habitação de Deus, onde Ele está sentado em um trono, cercado de apóstolos, anjos e arcanjos. Se a tradição está certa, o céu deve ser um lugar eterno, que sempre existiu, porque é a habitação de Deus. Aí não faz sentido dizer que "Deus criou os céus" se o céu e Deus sempre existiram.

Questão: o céu não pode ser o que comumente se conhece por firmamento? Ao invés de dizer que Deus criou os céus, é mais lógico dizer que Ele criou o firmamento. Mas isso não exime a descrição bíblica de afirmar um absurdo lógico. Não é outra coisa o que se diz adiante - e disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus... E sejam para luminares na expansão dos céus, para alumiar a Terra... E fez Deus dois grandes luminares (o luminar maior para governar o dia, o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas... E Deus os pôs na expansão dos céus para alumiar a Terra (GEN 1.14-17).

Tudo isso Deus fez no quarto dia de criação. Deus estava fazendo a Terra que, sabemos, é uma parte infinitesimal do universo. Demorou seis dias para fazer a Terra e um só dia para fazer o firmamento com centenas de bilhões de galáxias, sóis, estrelas, planetas, luas e toda sorte de astros monstruosamente maiores que a Terra. É ou não é uma contradição?

Hoje sabemos que o firmamento com milhares de estrelas, planetas e cometas que formam monstruosas galáxias é o que o texto bíblico chama de "os céus", criado num único dia, enquanto a terra, um ponto infinitesimal do universo, consumiu seis dias do tempo de Deus para sua formação. A hipótese de que o firmamento é "os céus" está confirmada adiante (GEN. 1.6-8). Isso confirma o absurdo lógico de se criar o firmamento em um só dia.

Falou-se aqui do primeiro ato da contraditória criação bíblica. A contradição é antiga, mas tão antiga como a tradição são as desastrosas tentativas de explicá-la ou justificá-la. Os defensores da teoria da Criação afirmam que cada dia da Criação se refere a uma época geológica, pretendendo conciliar a criação bíblica com a ciência e numa tentativa pálida de justificar a crença de que a Bíblia, sendo um livro sagrado, tem origem na inspiração divina.

O problema de acreditar que a Bíblia Sagrada é inspiração divina pura no espaço-tempo integral é fanatismo e sem sentido lógico. Com efeito, muitas de suas passagens não podem ser de autoria ou inspiração divina, sob pena de se amesquinhar o Criador e, até mesmo, correndo-se o grave risco de Lhe passar atestado de burrice. A Bíblia é, sim, um livro (na verdade, um compêndio de muitos livros) que merece respeito e, até mesmo, veneração. Mas, para isso, não precisa ser, necessariamente, de inspiração divina integral. Sua essência, sim, pode ser de origem divina. É preciso interpretar o livro sagrado com o critério da razão, buscando um sentido maior na exegese, tal como nas parábolas cristãs.