Esbarrei ontem com a pergunta-título acima em redes sociais e, pouco depois, percebi que ela tem tudo a ver com outra: "o que você vai ser quando crescer?". São dois extremos do mesmo caminho. Entre ambos, bem se tem uma vida toda. Uma internauta, ao responder sobre "o que deixou de ser quando cresceu", foi "espirituosa". "Trouxa", cravou. É bom mesmo deixar de ser bobo com o passar do tempo, o que não significa - obrigatoriamente - perder o encanto da ingenuidade.
Não pretendo terminar este artigo com o esperado "e você, leitor: o que deixou de ser quando cresceu?". Deixo já, aqui no meio mesmo, a provocação já estabelecida. Um convite à reflexão. A rebobinar a fita, como antigamente. E quantos de nós realmente nos tornamos aquilo que dizíamos desejar quando criança? A verdade, e isso cada vez fica mais evidente, é que - respeitando-se todo o brincar necessário para uma infância feliz - convém não demolir pontes da intuição que surgem logo cedo.
De fato, poucas coisas devem ser mais amargas e arrastadas do que tocar a vida por uma estrada que não deveria ser a sua. Deixamos de ser muita coisa quando crescemos, mas deveria ser proibido deixar de perder a vocação - e de ser entusiasmado. Talvez até mais do que o talento nato seja, sim, o entusiasmo o grande propulsor das realizações com consistência e durabilidade. Quem deixa um certo desânimo no dia a dia sufocar o entusiasmo está fadado a sequer existir para valer. É a morte antes da morte (tipo depressão).
É, não tem escape. A pergunta-título termina o artigo. "O que você deixou de ser quando cresceu?". Deixe martelar. É um questionamento pertinente. Pode até fazer uma lista se quiser: cinco coisas boas que laconicamente abandonou pelo caminho - e cinco ruins das quais se livrou com vontade. Talvez possamos passar para a próxima pergunta: o que você vai ser quando a segunda-feira chegar? Já está batendo à porta. Intrometido que sou, deixo até uma dica: seja a versão determinada de você. Aquela versão estusiasmada. Aquela que faz crescer.