Existem dois modelos sociológicos repudiados pelas nações politicamente organizadas: a infidelidade partidária e a promessa eleitoreira. Aqui no Brasil, ambos são aceitos - prelecionava o jurista Marcos Araújo. O único produto do marketing eleitoral é a promessa. Os candidatos a postos eletivos, simplesmente seguem essa que seria a regra do jogo.
Aqui na província, a impressão que se tem é que no dia 1º de janeiro de 2017, quando se iniciar o mandato do próximo prefeito, estará pavimentada uma estrada para o céu. O bauruense vai ao paraíso. Viveremos numa cidade perfeita se realizadas, em pelo menos um terço, as promessas de qualquer dos dois candidatos ao segundo turno. Estarão resolvidos todos os problemas de pavimentação, drenagens, abastecimento de água, saneamento, iluminação pública e creche nos bairros pobres. O candidato Raul vai criar um Poupatempo da Saúde. O paciente entra na clínica para consultas, passa por exames laboratoriais e recebe os remédios. Quem sabe, já sai curado pela outra porta. Se precisar de fisioterapia, posteriormente, ou tratamento dentário, o Gazzetta assegura. Haverá uma Policlínica para a Saúde da Mulher. Os idosos serão assistidos no "Manoel de Abreu", totalmente reformado. Para os jovens, Centros Esportivos modernos com quadras de esporte. Bolsa Atleta para os mais talentosos revelados nos Jogos Escolares.
Pistas de skate nos quatro cantos da cidade. Os deficientes e portadores de doenças raras também não foram esquecidos: a van busca em casa para exames médicos especializados e leva de volta. Basta ligar. De fazer inveja ao Reino Unido, socializado com a invenção do Estado-Provedor (Welfare-State). Quando perguntados de onde virão os recursos necessários, Raul diz que é amigo do governador. O Gazzetta não tem o governador, mas tem o vice. E, se não for suficiente, há os deputados federais amigos e o Kassab para dar uma mãozinha. Bauru será transformada num Centro Tecnológico. Indústrias virão aqui se estabelecer gerando empregos, que é o que mais falta. Enquanto isso, o secretário de Obras do município reza para que o mandato termine logo. As verbas se esgotaram. Haverá problemas para recompor o asfalto que as enxurradas de dezembro sempre levam. Para o eleitor, cabe a tarefa de contabilizar as intenções e verificar com quem fica o saldo mais positivo. Se é que intenções possam ser somadas e diminuídas. Shakespeare pontuava que "contrabalançar promessas com promessas é estar pesando o nada".
Má-fé? Não acredito. São coisas que povoam o imaginário dos candidatos e que eles gostariam, de coração, de transformar em realidade como heróis do povo. Se os fados assim não quiserem, servirá de consolo o verso do poeta Mário Quintana: "A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer". O principal é que prometer funciona e "o poder é mais gostoso que requeijão" - babava Benedito Valares, governador mineiro que mandou como nunca no seu Estado. Irrita o observador, a falta de inovação nessas promessas. Para restaurar a qualidade da vida urbana, ninguém tem a criatividade de um Danny Lion que sugeriu num ensaio provocativo no New York Times: 1 - Matar todos os arquitetos; 2 - Por fogo em tudo e preservar só as escolas e bibliotecas, como fez Alexandre em Tebas (preservou também a casa de Píndaro, o poeta lírico). 3 - Derrubar os muros dos condomínios para que a população se irmane. 4 - Criar a Polícia do Celular, para coibir o vício degradante do smartphone.
Felizmente, para os candidatos, o eleitor tem memória de minhoca. Esquece de cobrar durante o mandato ou, simplesmente, debita essas fabulações à conta dos usos e costumes. Ninguém se lembra de acionar o Procon por "propaganda enganosa" e exigir o voto de volta.
O dia em que inventarem uma urna eletrônica de desvotar, quem sabe melhora. Existe em tramitação na Câmara dos Deputados, projeto de lei alterando o Código Penal para tipificar o estelionato eleitoral. Quem estudou na ITE sabe que estelionato se caracteriza pela obtenção de vantagem ilícita com prejuízo para outra pessoa, a partir da indução ao erro mediante fraude. A pena atualmente é de reclusão de um a cinco anos e multa. Os parlamentares jamais irão jogar contra o próprio patrimônio, aprovando a criminalização da promessa eleitoral. A Lei Eleitoral já obriga os candidatos ao Executivo a registrarem propostas e projetos. O legislador queria evitar que um candidato se apoderasse da proposta do adversário na disputa. Também deveria permitir que o cidadão fiscalize e cobre a execução do planejado, durante o mandato, como exercício de cidadania. Nunca funcionou.