09 de julho de 2026
Regional

Região de Bauru cria 'Hollywood' independente

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 12 min

Malavolta Jr.
Diego Ramiro Maurício Daniel mostra as capas dos DVDs com sua produção cinematográfica

O cinema é uma produção cara, mas a tecnologia tem facilitado a reduzir custos com uso de câmeras fotográficas de alta resolução e programas de edição que rodam em computadores comuns. Com isso, o sonho dos aficionados em ter o seu próprio filme já não é tão impossível, que o diga Diego Ramiro, o "Jackie Chan" de Pirajuí, João Francisco Cunha que produziu documentário em Rancharia com captação de imagens em Santa Cruz do Rio Pardo e os irmãos Samuel Robson Sanches e o pai José Mathiasso que dirigiram o longa-metragem "O Indulto" em Ourinhos. 

Com recursos próprios, eles conseguiram produzir curtas e longas-metragens com qualidade que dificilmente conseguiria com as tradiconais câmeras de filmagem de 35 mm . A câmera digital facilitou por não precisar mais de usar película, do qual exigia custo mais alto e laboratório especializado. Mas dificuldades de produção, preparar cenário e tudo que envolve um set de filmagem é a mesma de numa produção profissional.

Aficionado por filmes de lutas marciais, o agente de escolta Diego Ramiro já produziu 10 médios e longas-metragens em videocassete e DVD. É o típico produtor de filme feito em casa, uma proeza pelas dificuldades de custeio sem amparo de uma indústria cinematográfica profissional.

Por coincidência, na semana que Diego Ramiro contou ao JC as suas "peripécias" que mistura kung fu com comédia foi anunciado o lançamento do filme "Shaolin do Sertão", do cineasta cearense Halder Gomes, o de "Cine Holliúdy", filme de baixo orçamento rodado no Ceará que fez sucesso no País. Essa "onda de baixo" custo é nova aposta do cinema e espécie de laboratório para revelar novos talentos.

Em Ourinhos, os irmãos Samuel e Robson Sanches e o pai decidiram fazer um longa-metragem de ação. Já tinham produzido um curta-metragem. O trio conseguiu uma proeza lançaram "O Indulto" com participação do ator e dublador Sílvio Navas, que emprestava a sua voz para personagens como Darth Vader, da saga Star Wars, e Mumm-Ra, da animação Thundercats, entre outros.

Mas não é só ficção há também documentário. O professor de educação artística João Francisco Cunha com currículo de nove curtas-metragens, um deles rodado em 35 mm com estrutura profissional, produziu recentemente o documentário que desvenda um acidente aéreo de 1951.

O Museu da Imagem e do Som (MIS) mantém o Ponto MIS que promove a circulação e difusão audiovisual. O projeto ajuda em muito os cineastas de "primeira viagem".

Agente é o Jackie Chan de Pirajuí

Com uma careca bem lustrosa, o agente de escolta Diego Ramiro Ferraz de Camargo, de 31 anos, tenta manter seu visual Shaolin. Fá de carteirinha de Jackie Chan, o "mago" da coreografia e dos filmes de lutas marciais, Diego Ramiro já produziu e dirigiu oito filmes em videocassete e DVD. É o típico produtor de filmes feito em casa, uma proeza pelas dificuldades de custeio sem uma indústria cinematográfica profissional. É um hobby levado a sério.

O que Diego Ramiro faz é muito parecido com a atual sensação do momento, "O Shaolin do Sertão", a nova comédia do cineasta cearense Halder Gomes (Cine Holliúdy) que lançou a recente produção para 149 salas espalhadas pelo território nacional. 

Nas horas vagas o Shaolin pirajuense é o palhaço "Zé Bolacha". O humor circense dá a cancha para essa mistura de filme de lutas à la Jackie Chan à brasileira.

No fundo de sua casa, em um quartinho apertado recheado de fotos de artistas como Bruce Lee, prateleira de DVD, livros sobre cinema e o computador "azeitado" com ilha de edição é onde Diego finaliza as suas produções, a maior parte de golpes de kung fu. A edição rápida consegue verossimilhança com filmes chineses. 

Até há pouco tempo, as fitas ficavam nas locadoras da cidade e da região, mas a evolução está levando todo esse acervo para a Internet. O "Jackie Chan" pirajuense é concursado na Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) onde trabalha em turno de 12 por 24 horas na escolta de presos. Por dever de ofício é lutador de caratê, o que o habilita a repetir nos filmes caseiros as coreografias no estilo Jackie Chan. Nas horas vagas, ele junta amigos para produzir os filmes de curta duração.

Quem assiste não tem dúvida: a qualidade das lutas é admirável. "Como não temos recursos para efeitos especiais, a luta é possível, porque é uma coreografia. Basta treino", conta após uma golada de um cappuccino bem forte, após fazer cara feia, bem histriônico. 

O agente ressalta que leva bem a sério o que para alguns é um hobby. "Quando fala hobby parece que é uma coisa secundária. Tinha que existir uma outra categoria de palavra para distinguir uma coisa que você faz em tempo integral e não vive dela. É um hobby sério. É mais fácil passar mais tempo com isso do que com o próprio serviço que me dá rentabilidade."

A sua "carreira" cinematográfica começou aos 11 anos quando trabalhou em uma locadora de Pirajuí. O acervo era grande e acabava assistindo aos filmes de lutas marciais. O filme de seu inspirador ele assistiu mais de 50 vezes. "Queria saber como ele fazia. Por que a câmera vai aqui? E não vai lá em cima. Qual o motivo de alguns cortes? Como é feita a coreografia? Essa curiosidade me ajudou a aprender".

Nos filmes do ator e diretor de Hong Kong no final sempre é mostrado os erros de gravação. Isso o ajudou a compreender a dinâmica das coreografias. "Percebi que ele é humano. Ele erra e por isso faz várias vezes até dar certo. Nessa época não havia o Youtube", conta o agente.

Os seus filmes misturam as artes marciais com comédia. Diego Ramiro tem um sonho: dirigir um filme profissional com toda a estrutura necessária. 

Nos primórdios do cinema

A falta de recursos não é impedimento para a criatividade. Diego Ramiro conta que, antes de produzir seus filmes, sempre foi cinéfilo. A busca pela inspiração vai até mesmo no cinema mudo norte-americano.

Ele conta, por exemplo, que Buster Keaton, nome artístico de Joseph Frank Keaton Jr., ator e diretor americano de comédias mudas, considerado o grande rival de Charlie Chaplin, o ajudou muito a entender como fazer suas produções. "Comecei a ver os filmes da época de Buster Keaton em preto e branco. Por não ter tantos recursos técnicos, percebi que muitas daquelas cenas davam para fazer. Basta me esforçar".

Diego Ramiro relata, no entanto, que teve que descobrir um estilo brasileiro. "A linguagem dos filmes chineses de luta marcial é diferente de Buster Keaton, de mais expressão corporal. As piadas e os trejeitos nosso ficaram mais abrasileirados", cita.

Ele sempre está "antenado" no mundo cinematográfico, principalmente asiático, e não somente Hollywood. "Neste ano saiu um filme de Stephen Chow, ator e cineasta de Hong Kong a maior bilheteria do cinema chinês. Nos Estados Unidos passou em 20 cidades e não teve o mesmo sucesso. São linguagens diferentes por isso dessa inexpressividade internacional. O estilo de humor é diferente", conta.

Ramiro já conseguiu algumas proezas quando gravou, em Pirajuí, o curta-metragem "Ballet de Morte", com a participação do eterno trapalhão Dedé Santana, de 79 anos.

Filme de ação de Ourinhos teve dublador famoso

Os atuais equipamentos eletrônicos facilitam em muito produzir um filme com qualidade compatível com o cinema profissional. Samuel Sanches, José Mathiasso e Robson Sanches transformaram o sonho de serem cineastas por um dia ao produzir e dirigir "O Indulto" com locação em Ourinhos e Rio de Janeiro. No elenco, um dos últimos trabalhos de Sílvio Navas, famoso dublador que emprestava sua voz para personagens como Darth Vader, da saga Star Wars, e Mumm-Ra, da animação Thundercats.

Sílvio morreu no dia 29 de setembro deste ano. "O Indulto" conta a história de um juiz (Sílvio Navas) que tem sua vida virada ao avesso após um julgamento conduzido por ele. Daí em diante tem uma caçada "épica" pelas ruas de Ourinhos até o final numa cena no cemitério.  A amizade de Sílvio com os diretores era antiga desde os tempos da rede social Orkut. "Na verdade sempre fui fã dele. No primeiro curta ele fez uma ponta. Ele gostou do resultado e me falou na época: no próximo filme quero ir aí. Então convidei e ficou cinco dias em Ourinhos", conta. O primeiro filme do trio foi Outland.

Canal a cabo

Samuel é do ramo de audiovisual. Atualmente é proprietário do canal a cabo San 21, mas essa paixão por cinema é herança do pai, aficionado pelos filmes de Mazzaropi. "O tio do meu pai foi figurante das produções de Mazzarropi. Temos toda a coleção de filmes. Depois comecei a montar sala de cinema. Meu pai teve vontade de fazer um filme. Começamos a preparar um curta, que é Outland Ourinhos, em 2012", ressalta.

O "Indulto" é o segundo filme do trio que começou a ser preparado em 2010 com aquisição de equipamentos. Tudo financiado com recursos próprios, gravado em Full HD. Samuel prefere a produção independente do que o sistema de captação de recursos via lei de incentivos fiscais. Ele é crítico a esse sistema. 

A produção é "caseira", mas teve ajuda de profissionais, um deles para efeitos especiais: Fabrício Rabacchini foi quem preparou e ficou responsável por essa parte - ele tem participação em programas da Globo. "Ele gostou do trabalho da gente e ficou muito legal", disse Samuel.

Após a exibição dos filmes em Ourinhos, Samuel admite que o hobby está ficando mais sério. A repercussão foi boa e já prepara uma ficção cientifica, "Vírus", em curta-metragem de 10 minutos aproximadamente.

As locações de preferência são em Ourinhos, mas também é rodado em outras cidades.  "O filme teve repercussão no Rio de Janeiro, porque é uma produção barata, não tínhamos dinheiro nenhum. Devo  ter gasto R$ 100 mil e a maior parte foi na aquisição de equipamentos".  

Bollywood de olho

Um produtor indiano, de Bollywood - nome dado à indústria de cinema indiana já reconhecido internacional na Ásia - esteve em Ourinhos para conhecer o trabalho do trio. Por enquanto não há nada formalizado, mas despertou a atenção pela qualidade do filme feito com poucos recursos. O nome Bollywood surge da fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai, cidade onde se concentra esta indústria), e de Hollywood (nome dado à indústria cinematográfica americana). De acordo Samuel Sanches, há uma conversa, porém não sabe como será uma possível coprodução. "Não sei o que eles vão aprovar. Vai ser filmado lá e aqui. Recebemos o convite deles, gostaram da técnica de filmagem.  Não sei o que eles viram na gente. Gostaram do que fizemos sem dinheiro. Para um cara sair de Bombaim e vir aqui em Ourinhos", contou.

Documentário desvenda acidente aéreo que matou 6 pessoas em 1951

Jornal Debate/Divulgação
Ondina Taveiros viajou no DC3 da Vasp e desceu em Santa Cruz Rio Pardo, antes de ocorrer a tragédia a oito quilômetros de Rancharia

A produção cinematográfica independente comporta da ficção até o documentário. João Francisco Cunha reconstituiu a queda de um avião DC-3 da Vasp, em 1951, a 8 quilômetros de Rancharia, que fazia o trajeto São Paulo, com escala em Santa Cruz do Rio Pardo e destino final Presidente Prudente. Antes de se envolver pelo "cinema verdade" a iniciação do diretor foi na produção de nove curtas-metragens, um deles para crianças, o Cine Cabanas de 2006, feito em 35 mm premiado pelo Ministério da Cultura.

A rigor, o projeto nasceu de uma conversa entre um ex-prefeito de Rancharia, Nivaldo Deganello e Cunha que tinha muito interesse em ver a história na tela do cinema. A queda do avião ocorreu no dia 18 de maio de 1951 e ficou marcada na consciência dos mais velhos do município. Inicialmente seria apenas o relato dos acontecimentos. "O projeto tomou corpo, descobrimos que o piloto pode ter sido responsabilizado injustamente pelo fato, isso mudou muito a linha de desenvolvimento e pesquisa do documentário", contou o diretor do filme ao JC.

Conforme Cunha, o desastre poderia ter sido maior, uma vez que a aeronave tinha capacidade para 30 pessoas, mas no dia do acidente havia seis pessoas. No acidente morreram: João Rizzo, o co-piloto Valter Garcia Filho, o radionavegante Ernie Wolf, a comissária Gláucia e os passageiros Eikishi Tsuzuki, Lila Tarabay e Teresa Ramalho Dias.

A história ganhou densidade quando o diretor descobriu que Ondina Taveiros, de 90 anos, viajou no DC-3 e foi a passageira que desceu em Santa Cruz do Rio Pardo. Ela faleceu neste ano. Mas seu depoimento é muito interessante. Ela lembra que o avião antes de sair de São Paulo atrasou porque já apresentava algum problema. "Um japonês que perderia o avião chegou e disse a ela: 'Quase perdi o voo, que sorte hein, que sorte'", contou dona Ondina na época. Esse japonês é Eikishi Tsuzuki que morreu no acidente.

A linha regional era operada pelo DC-3 um avião a hélice pela Vasp que fazia escala em Santa Cruz do Rio Pardo. O aeroporto nem mais existe nesta cidade.

Também havia a possibilidade da queda do avião ter sido provocada por um raio. Cunha entrevistou Osmar Pinto Júnior, especialista em eletricidade atmosférica, que explica sobre as chances e possibilidades de um raio derrubar um avião. O laudo oficial não aponta o fenômeno atmosférico e sim falha humana. De 1950 para cá, 14 aviões foram atingidos por raio e a queda do DC-3 seria um destes. Após exibições em Santa Cruz e Presidente Prudente, o documentário feito em Full HD vai ser inscrito no Festival "É Tudo Verdade".

João Cunha é professor de educação artística e técnico em eletrônica. O cinema é um hobby de 12 anos, porque ainda não dá sustento. Dos nove curtas, pelo menos oito foram feitos com participação de amigos. O único desenvolvido profissionalmente foi o "Cine Cabanas", rodado em São Paulo com equipe profissional com orçamento de R$ 60 mil. 

A próxima produção é "Olhos Vendados" que conta a história de um autista que tem fobia social e aprende a jogar xadrez. 

Museu da Imagem e do Som leva oficina de cinema aos municípios

O Museu da Imagem e do Som (MIS) mantém os Pontos MIS para promover a circulação e difusão audiovisual, além de formação de público e circulação de obras do cinema. O projeto ajuda em muito os "cineastas" de primeira viagem. Além dos filmes há também oficinas audiovisuais teóricas e práticas.

O Ponto MIS mensalmente envia dois programas de filmes diferentes para exibição, sendo eles, na maior parte das vezes, compostos por um curta e um longa-metragem. Foram realizadas mais de 20 mil sessões nos últimos cinco anos, ultrapassando meio milhão de espectadores.

Além dos filmes, as cidades recebem oficinas audiovisuais (teóricas e práticas) e conversas com o diretor do filme exibido. São mais de 30 atividades complementares de diferentes abordagens e para públicos distintos oferecidas bimestralmente para o interior e litoral do Estado. Mais de 5 mil oficinas já foram realizadas, ultrapassando 50 mil participantes.

Os simpatizantes de cinema têm a oportunidade de aprender técnica e teoria nessas oficinas. De 2011 a 2016, o número de participantes triplicou, alcançando 125 pontos espalhados pelo Estado de São Paulo. Do total das cidades, 16% têm menos de 10 mil habitantes, e 50% menos de 30 mil.