08 de julho de 2026
Geral

Em cada visita, uma história

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
Cerca de 15 mil bauruenses saíram de casa, ontem, para visitar os túmulos de parentes e amigos nos cemitérios em homenagem ao Dia de Finados, onde foram deixadas flores e feitas orações

A professora Rosa Maria de Souza, de 56 anos, relembra, sensibilizada, do sorriso contagiante de sua amiga e colega de trabalho, que morreu há poucos meses, após a metástase de um câncer de mama. Ela e diversos outros bauruenses se emocionaram diante dos jazigos dos entes queridos, ontem, Dia de Finados.

Enquanto acendia uma vela no Cemitério da Saudade, Rosa reviveu bons momentos de uma amizade que durou aproximadamente 15 anos. "Minha amiga lutou contra a doença por nove anos. Mesmo fragilizada, nunca desistiu de viver", elogia.

Agora, o que fica é a saudade e uma lição de vida. "Quando ela se foi, parei para pensar e deixei de trabalhar para me dedicar mais à família. Não faz sentido trabalhar até 12 horas por dia e sequer ter tempo para passar com os filhos", observa.

Já no Cemitério do Jardim Redentor, estava a contadora Adriana da Silva Ducatti, de 39 anos, que visitava seu avô materno. "Quando ele morreu, eu tinha 5 anos. Mesmo assim, me lembro do meu aniversário de 4 anos, no qual meu avô estava presente e me segurava no colo. Essa imagem sempre me vem à mente", recorda.

A PEQUENA KETLEN

Ainda no Redentor, o casal Maria Aparecida Andrade da Silva de Almeida, de 30 anos, e Cléber Colaris de Almeida, de 34, visitava o jazigo da filha, a pequena Ketlen Vitória, que morreu ao nascer, há um ano e quatro meses.

Emocionada, Maria narra que já sabia da possibilidade de o bebê não resistir, porque sua gestação apresentou complicações após o quarto mês. "Mesmo assim, eu fiz uma mala com as roupinhas dela e levei à maternidade. Sofri quando descobri que, de fato, a Ketlen havia morrido", conta.

O que conforta a recuperadora de crédito é sua filha mais velha, Ana Clara, de 5 anos. "Deus sabe o que faz. Quando alguém me pergunta quantos filhos eu tenho, respondo: dois. Uma está comigo e a outra, com Deus", finaliza.

Milagreira

Toda vez que se fala em crime sem solução, em Bauru, o caso de Mara Lúcia Vieira vem à tona. Aos 9 anos, a menina foi estuprada e morta em uma casa desabitada situada na rua Professor José Ranieri, na região central da cidade.

O fato se deu no dia 15 de novembro de 1970 e, até agora, não foi desvendado. Porém, mesmo que o autor seja encontrado, ele não poderá ser processado, porque o crime está prescrito. O túmulo da menina, no Cemitério da Saudade, é um dos mais visitados no Dia de Finados. Há quem garanta que ela faça milagres.

Ontem, o jazigo estava repleto de flores, doces e placas de graças alcançadas. A aposentada Antonia Alcântara, de 72 anos, costuma visitar o local nesta época do ano e relembra o alvoroço que a morte da criança causou no município. "Na ocasião, era raro ocorrer algum crime absurdo e o caso chamou a atenção. A indignação dos bauruenses a transformou em uma espécie de santa", pontua.

Movimentação

O gerente de necrópoles e funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Fábio Luiz Nalli Silva afirma que a movimentação dos cemitérios, neste Dia de Finados, foi até 20% maior do que em 2015, quando aproximadamente 15 mil pessoas passaram pelas cinco necrópoles municipais.

Segundo Silva, ao contrário dos anos anteriores, o feriado caiu em uma quarta-feira, ou seja, no meio da semana. "Ao mesmo tempo em que as pessoas de fora vieram visitar os jazigos no último final de semana, as que moram em Bauru não viajaram e fizeram o mesmo", frisa.

O gerente de necrópoles acrescenta, ainda, que não houve qualquer transtorno durante o tempo em que os cemitérios permaneceram abertos. Para quem não conseguiu visitar o ente querido ontem, ele informa que as necrópoles municipais funcionam de segunda a segunda-feira, das 7h às 17h.