08 de julho de 2026
Geral

É preciso viver a vida'

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Divulgação
Gabriel faz instrumentos com material reciclável   

Ele tem apenas 17 anos, mas já conquistou um sonho que definiu como meta para o agora: ser o primeiro bauruense a conquistar uma vaga no seleto grupo de 50 jovens brasileiros selecionados para o Programa Jovens Embaixadores, que leva adolescentes de baixa renda aos Estados Unidos (e conta com a parceria das Secretarias Estaduais de Educação de todo o País, além de algumas escolas de idiomas). Hoje você conhece a história de Gabriel Victor Gonçalves de Bessa Camarero, estudante da Escola Estadual Carolina Lopes de Almeida, no Jardim Godoy.

Esta será a primeira viagem de Gabriel para fora do Brasil, e ele já traçou diversos planos para a sua estadia nos Estados Unidos. O adolescente quer agarrar todas as oportunidades que podem surgir com essa porta que se abriu. "É uma oportunidade única e estou correndo atrás para ficar por lá e fazer minha graduação", projeta.

 Entre a trajetória do menino de família humilde estão as lutas para estudar. Ele aprendeu inglês em casa e também é um luthier autodidata (faz violinos). Gabriel ainda foi um dos bauruenses que carregaram a Tocha Olímpica. Confira os principais trechos da entrevista, a seguir.

JC - O que faz um jovem embaixador?

Gabriel Victor Gonçalves Bessa Camarero - A gente vai para os Estados Unidos fazer um intercâmbio cultural e participativo. Antes vamos para Brasília para revisar todas as instruções, etiquetas e tudo mais. Nos Estados Unidos visitaremos a Casa Branca. Nós vamos levar um pouquinho do Brasil para lá e vamos trazer um pouquinho dos Estados Unidos para cá. O programa foi criado em 2002, depois que um grupo de jovens brasileiros foi visto queimando bandeiras dos Estados Unidos. Depois de Washington, cada um dos 50 participantes do programa vai para um host family, famílias que "adotam" intercambistas em casa por duas semanas. Vamos para a escola pública de lá para vivenciar um pouco da realidade americana.

Jornal da Cidade - Qual foi o seu primeiro contato com o Programa Jovens Embaixadores?

Gabriel - Eu fiquei sabendo da existência dele pelo Facebook, em 2014. Nesse mesmo ano, eu tentei entrar para o programa pela primeira vez. Tive um desempenho bom, não cheguei a passar, mas fui para a imersão, que é como um intensivo para quem chega muito longe, nas finais. Isso foi feito na embaixada de Brasília. Este ano tentei novamente e passei. As inscrições também são feitas pelo Facebook.

JC - Como foi a sua maratona de preparo para a conquista? 

Gabriel - Eu estudo inglês sozinho, desde sempre. Então já tinha um ritmo bom. Minha mãe sempre me disse o quanto é importante saber inglês. E hoje eu vejo como isso é realmente fundamental para abrir portas. Desde criança eu gosto de estudar línguas. Falo outras, mas sou mais fluente no inglês. Não sei dizer quantas horas eu estudei por dia, alguns dias duas horas, outros dez, foi tudo de acordo com minha rotina. Além da língua, também estudo sobre a cultura dos outros países.      

JC - Você sempre acreditou que conseguiria? 

Gabriel - Meu sentimento foi crescendo conforme fui avançando nas etapas. Conheci o programa, que é bem seletivo, já que você precisa ser de escola pública e fazer algum serviço voluntário, por exemplo. Eu vi que preenchia os requisitos e fui adiante, passo a passo. Sou o primeiro aluno a conseguir a imersão e a vaga de jovem embaixador, em Bauru. É uma seleção muito concorrida e criteriosa.     

JC - Qual é o espaço da música na sua vida? É com ela que você desenvolve o seu projeto social, certo?

Gabriel - A música teve um grande espaço desde sempre. Eu participei do Projeto Guri e me desenvolvi no Sesi. Hoje toco violino, baixo, violoncelo, viola, entre outros. Meu projeto social com a música consiste em ajudar em aulas voltadas para toda a comunidade (de 6 a 80 anos) no Sesi, além de reparar instrumentos. Faço isso há uns três anos. Isso me ensinou muito a lidar com as pessoas. É um trabalho bastante positivo.     

JC - Você já tem planos para depois do programa?

Gabriel - Eu estou correndo para fazer minha graduação lá. Pretendo fazer faculdade de música. Esta é a minha primeira opção. Caso não faça música, farei um MBA ou algo relacionado com negócios. Muitos dos jovens que vão para lá têm grandes oportunidades depois, por aqui. Mas o meu objetivo não é voltar. Eu creio que por lá terei boas oportunidades para estudar e viver. Eu também tenho vontade de desenvolver um projeto de instrumentos feitos com material reciclado por lá e também por aqui, se possível. 

JC - Como é feito esse trabalho com "instrumentos reciclados"?

Gabriel - É um projeto que já comentei com nomes como o maestro João Carlos e Paulo Skaf. Minha ideia é construir instrumentos com material reciclável para micro-orquestras brasileiras. Essa é uma ação que também tem relação com o meu projeto social. Eu sou luthier autodidata (faço violinos). Eu faço os instrumentos de lata e o som é igual ao da madeira, um som limpo. O preço desse violino é muito menor, além de ser sustentável. Meu desejo é levar esse projeto para a indústria. Para eu chegar até o meu primeiro instrumento eu pesquisei muito e levei uns oito meses, depois mais uns dois anos para aperfeiçoá-lo.        

JC - Quais foram os obstáculos superados até aqui? 

Gabriel - Minha mãe é a minha heroína. Viemos para Bauru quando eu tinha seis meses de vida, depois que meus pais se separaram. Minha vida nunca foi fácil. Tudo o que eu estou colhendo foi duramente conquistado. Não citaria uma ou outra passagem, um ou outro obstáculo que passamos, digo isso de maneira geral mesmo. Nada foi fácil. Nunca frequentei uma escola de inglês e também nunca tive aulas particulares de música. 

JC - Você também carregou a Tocha Olímpica. 

Gabriel - Sim. Foi muito emocionante. A oportunidade veio do projeto "Esse é ouro", que participei com a minha escola, com a turma do terceiro ano. Elaboramos um vídeo para mandar para a Coca Cola. Várias escolas mandaram e a nossa foi uma das selecionadas. Fizemos uma produção considerável, aliás, sempre gostei muito de cinema e de estudar sobre o assunto. Fomos selecionados e participamos de festivais de escolas. Eu fui escolhido pelos professores para carregar a Tocha.     

JC - Gabriel por Gabriel. 

Gabriel - Eu sou uma pessoa bem simples e tranquila. Dificilmente eu fico nervoso. Sou bem focado e determinado. O tempo passa de qualquer jeito. A vida passa. Você não pode deixar a vida viver você. Você é quem deve viver a vida.    

Perfil

Gabriel Victor Gonçalves Bessa Camarero

Tem 17 anos e é do signo de Sagitário

Nasceu em São José do Rio Preto, mas cresceu em Bauru

Tem a Bíblia como livro de cabeceira 

O cinema é seu hobby e seu filme preferido é "O Poderoso Chefão 1"

Quando o assunto é música, ele se diz eclético

Nota 10: Para o Departamento de Estado dos Estados Unidos, por ter criado o Programa Jovens Embaixadores, que leva adolescentes de baixa renda aos EUA

Nota 0: Para a saudade que fica quando nos separamos de amigos 

E-mail: gabibessaviolin@gmail.com