10 de julho de 2026
Geral

Novo presidente dos EUA não deve trazer impactos imediatos ao Brasil

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.
Beatriz Sabia "Dependerá muito mais do esforço do governo brasileiro para se reposicionar no sistema internacional"

Hoje, as eleições nos Estados Unidos vão definir quem assumirá a Casa Branca após oito anos de governo Barack Obama (leia mais na página 19). A disputa segue polarizada entre os dois principais candidatos - a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump - e, embora a vitória de um ou outro possa representar a tomada de rumos distintos ao país, o resultado das urnas não deverá ter impacto imediato para o Brasil, segundo a análise de especialistas ouvidos pelo Jornal da Cidade.

Professora a coordenadora do curso de relações internacionais da Universidade do Sagrado Coração (USC), Beatriz Sabia Ferreira Alves diz que esta expectativa deve se concretizar porque as relações com o Brasil têm, atualmente, pouca importância para os EUA. E uma amostra dessa despreocupação é que tanto Hillary quanto Trump não fazem referência ao país em suas campanhas ou programas de governo.

"Imerso em um cenário de instabilidade econômica e política, o Brasil deixou de ter a importância que já teve em outro momento no cenário internacional. Não vejo nenhuma mudança em comparação ao que já temos hoje, com o governo Obama. Vai depender muito mais do esforço do governo brasileiro para se reposicionar no sistema internacional e, assim, voltar a aprofundar sua relação com os EUA".

Para Maximiliano Martin Vicente, professor de história e ciência política da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a repercussão do novo governo em território brasileiro dependerá, em grande medida, da velocidade com que a economia dos Estados Unidos conseguir se recuperar. "Historicamente, os republicados sempre favoreceram mais a América Latina do que os democratas, já que estes últimos têm apoio dos sindicatos, que são muito protecionistas, ou seja, favorecem mais o mercado interno", cita.

EFEITOS

Vicente acrescenta, contudo, que a formação de blocos econômicos dentro de uma economia globalizada trouxe mudanças importantes e que, hoje, independentemente da vitória de Hillary ou Trump, os países latinos podem sofrer efeitos danosos. "Os EUA terão de adotar medidas protecionistas e de criação de empregos. As forças que estão por trás dos dois candidatos são muito radicais em seu posicionamento e, se a economia dos EUA demorar para se reerguer, isso implicará, para o Brasil, exportar menos", frisa.

Ainda que, em relação ao comércio exterior, ambos os candidatos tenham discursos semelhantes, Beatriz lembra que o Trump tem se mostrado mais agressivo, repetindo, por diversas vezes em sua campanha, que países como China e México estão "roubando" empregos e indústrias dos EUA. "Mas, hoje, com a economia neoliberal que temos e com a globalização, não há como fechar o país para a China sem quebrar os Estados Unidos".

Vicente lembra que a China, inclusive, terá papel decisivo na política econômica dos Estados Unidos, visto que detém, ao lado dos países árabes, a maior parte dos títulos da dívida externa dos EUA. "Ou seja, não valerá a pena enfrentá-la. O próximo presidente terá de compor e ceder em alguns pontos, para ganhar em outros", completa.

Bauruenses revelam detalhes do clima pré-eleitoral

Pesquisador bauruense, Ivan José Vechetti Junior, 30 anos, está nos EUA desde janeiro para fazer pós-doutorado na área de fisiologia muscular. Doutor em biologia geral e aplicada, ele vive com a esposa em Lexington, Kentucky, e conta que as eleições são o assunto do momento por lá.

"Por conta de o debate entre Trump e Hillary ter sido de muita acusação, já existem piadas e alguns jogos sobre os candidatos. Por exemplo, toda vez que o Trump diz 'por uma América melhor' ou a Hillary diz 'ele está mentindo' em um debate, quem está assistindo e participando da brincadeira toma uma dose de bebida alcoólica. Ao final, todos acabam saindo bêbados", brinca.

Vechetti Junior diz perceber, contudo, que as intenções de votos ainda seguem bastante divididas, embora com pequena vantagem para a democrata. "Os democratas são a favor de programas sociais para ajudar os pobres, mas com aumento os impostos de quem trabalha e isso parece estar irritando muita gente. Já os republicanos são bem mais conservadores. São, por exemplo, totalmente contra casamento gay. Mas as pessoas daqui dizem que, independentemente de quem ganhar, a questão de imigração não seria afetada", pontua. 

Devido ao discurso conservador adotado por Trump, empresário bauruense Roque Padovini Filho, 60 anos, cita que os latinos estão mobilizados para fazer com que Hillary vença. Há três anos, ele mora com a família em Orlando, Flórida, estado importante na disputa por ter grande representatividade.

É também uma região dos EUA que concentra grande número de imigrantes latinos, conforme lembra Padovini Filho. "A tendência é ela ganhar, até com uma folga maior do que o noticiário tem mostrado. Para o povo latino, há uma guerra contra o Trump. Muitos imigrantes foram atrás dos documentos necessários para poder votar e impedir que ele seja eleito, motivados pela campanha de incentivo lançada pela própria Hillary, com o apoio do Obama e sua esposa, Michelle, que têm um grande prestígio no país", completa.

Em tempos: ambos os bauruenses não irão votar.

Imigrantes

Trump também adota um discurso mais radical em relação à política de imigração. Enquanto Hillary Clinton promete efetivar a regularização imigrantes ilegais que trabalham e pagam impostos, o empresário promete deportá-los, bem como suspender a imigração de alguns países e construir um muro na fronteira com o México.

Embora a vitória de Trump possa criar um ambiente hostil aos imigrantes nos EUA, os especialistas analisam que o discurso duro do milionário, na prática, não deve se concretizar. "No cenário atual de fechamento de vagas de trabalho no Brasil, receber milhares de brasileiros de volta seria muito complicado. Mas, a política de imigração que o Trump planeja possivelmente não deve ser implementada", frisa Beatriz.

Como um dos impedimentos, ela cita a necessidade de mão de obra estrangeira para funções que, normalmente, a população nativa se recusa a assumir. Já Vicente salienta que as propostas do candidato dificilmente seriam aprovadas pelo Congresso.

"Muitos deputados são eleitos pelos votos dos imigrantes e Trump enfrentaria muita resistência. Acredito que se trate mais de um discurso de campanha, que se repete em vários países do mundo, como França, Inglaterra e Alemanha", completa.

Assim como Beatriz, Vicente avalia que Hillary e Trump criaram "personagens" para protagonizar a corrida à Casa Branca, o que dificulta fazer previsões certeiras. "Ficou muito pouco claro na trajetória dos dois a política externa que irão seguir. Então, o que fica é uma incógnita grande", pondera.