Elza gosta de visitar o pelicano que vive no Passeio Público (Curitiba), num amplo cercado, exibindo-se e furtando-se aos olhares das crianças, dos velhos e de todos que têm também um pouco o espírito da criança e do velho. Uma menina tentava fotografar o pelicano, procurava um ângulo melhor, as grades da cerca dificultando. O pelicano não parava no lugar, naturalmente – só faltava o bicho fazer pose para a fotógrafa desajeitada. Então apareceu o polaco, com um meio sorriso nos lábios, com uma leve malícia brincalhona. Chamou o pelicano para cá, para lá, fez com que o seguisse, obediente, amigo.
Amigo é a palavra. O polaco é o amigo do pelicano, todos os dias vai visitá-lo (com exceção da segunda-feira, quando o Passeio não abre). Uma vez, por motivo de viagem, esteve ausente por vinte dias. Resultado: o pelicano ficou doente. Amuado, não comia, cada vez mais triste e fraco. Foi só o polaco voltar que a vida voltou. Alegre, imponente, senhor do seu cercado – onde ignora os gansos e patos que convivem com ele. O polaco conta como o pelicano lhe obedece, vai tomar banho no ribeirão nos fundos do cercado, mesmo se estiver frio.
Uma beleza vê-lo abrir as asas se exibindo, como se fosse um pavão. Bravo quando uma criança se aproxima, grita, quer bicar, se defendendo. Uma menina, conta o polaco, espetou-lhe a cara com uma vara, junto ao bico, pouco abaixo dos olhos. Levou um mês para sarar – o ódio ficou. Essa é uma ferida que não sara e, assim, o pelicano detesta crianças. Detesta também as mulheres. O polaco não dá uma explicação para esse fato; apenas admirou-se de que o pelicano e Elza se comunicavam. Não sei o que os dois se disseram, mas o polaco sentiu que se comunicavam. Disse:
– Estranho. Ele não gosta de mulheres. Você é especial. E logo foi se afastando, através da ponte sobre o ribeirão do Passeio Público, e abanando para o pelicano que, de asas semiabertas, ficava atrás das grades olhando-o com o seu ar triste. Disse, ainda: – Ele vai ficar aí me esperando. Se daqui uma hora eu voltar, ele estará aí de asas abertas me esperando. Elza também se retirou. Mas ficou pensando no pelicano solitário. Não encontraram nenhuma fêmea para consolá-lo dessa dor maior, a solidão.
O pelicano é um ser incompleto sem a esposa, e os filhos, e a morte amorosa em prol dos filhos. Não é à toa que tem o bico grande, em forma de concha: é para enfiá-lo no peito e tirar o próprio sangue para alimentar os filhos. Elza foi embora, com um travo de saudade na garganta, talvez dentro do peito. Quem parte está perdendo alguma coisa. Estamos levando alguma coisa conosco, crescemos em cada despedida, mas é muito mais forte o que deixamos e um sentimento de vazio nos acompanha. Mesmo se o objeto do desejo for um simples pelicano. Poderia ser uma pedra, ou uma pétala na água, indo-se para sempre. Para sempre é muito tempo, mas as coisas que deixamos, as coisas que perdemos, deixamos e perdemos irremediavelmente.
Um mendigo estende a mão. Elza procura uma moeda enquanto observa as pernas grossas do mendigo, cinzentas, azuladas, escorrendo pus, com moscas gulosas voejando por cima. Pensa no “cemitério de elefantes” de Dalton Trevisan. Onde estão os outros “elefantes”? Onde é o “cemitério”? Que resta aos elefantes senão procurar a última morada? Elza olha para trás – sempre se olha para trás quando se parte, quando se perde – e vê, além das águas apressadas do ribeirão, o pelicano batendo as asas como se fossem lenços brancos a lhe dizer adeus.