07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Reflexão e fé

Pe. Guido Mottinelli - doutor em teologia bíblica pela Faculdade Urbaniana
| Tempo de leitura: 3 min

No Jornal da Cidade de Bauru do dia 3 de novembro de 2016, quinta-feira, na página 15, foi publicado o artigo do pastor Hugo Evandro Silveira, da Igreja Batista do Estoril, sobre a celebração dos 499 anos da Reforma Protestante. De fato, o século XVI ficou marcado na história pelo nascimento de religiões cristãs, não católicas, entre as quais o luteranismo, anglicanismo, calvinismo e outras menores, como também pela resposta que a Igreja Católica deu aos movimentos da Reforma através da celebração do Concílio de Trento (1545-1563). Lutero, ao traduzir a Bíblia Sagrada para o alemão, não somente destacou a Carta aos Romanos 1, 17, referente ao valor da fé, mas também realçou a Carta de Tiago, a qual afirma que “a fé, sem as obras, é morta” (Tg 2,17). Pergunto, então, ao pastor Hugo: “Qual foi a reação de Lutero diante da Carta de Tiago?”


A Igreja Católica reconhece com humildade que o século XVI não foi dos melhores, devido a posturas e erros comportamentais que nunca deveriam ter acontecido por parte de pessoas consagradas e responsáveis pela condução do rebanho de Deus. A Igreja retomou seu caminho, procurando, com modéstia e fé, responder plenamente à sua missão evangelizadora. O Concílio de Trento abriu o capítulo da Contrarreforma  definindo a doutrina da validade dos Sete Sacramentos e da Transubstanciação. Não se trata assim, pastor Hugo, de “sacerdotalismo com dogmas criados extra bíblicos”, como o senhor afirma em seu artigo. Estamos diante da atuação legal e jurídica do Magistério da Igreja (Mt 16, 18-20). Já nos primeiros séculos da história cristã, a Igreja havia proclamado  dois Dogmas a respeito de Nossa Senhora, definindo Maria “ Mãe de Deus’’ (ano 431) e a “Virgindade” de Nossa Senhora (ano 639).


Não podemos absolutamente aceitar a sua expressão, senhor Hugo, que define uma Europa vítima das “trevas” provocadas pela Igreja Católica. Ainda naquele século XVI, tivemos grandes Santos e Santas que registraram seu nome no mundo europeu e nos primórdios da descoberta do continente americano: Inácio de Loyola, Luiz Gonzaga, José de Anchieta, Teresa de Ávila etc. Perante tudo isso, pergunto-lhe, pastor Hugo, com qual autoridade afirma a existência de “dogmas e práticas sem qualquer base bíblica desconfigurando a teologia bíblica? Sabendo que a vida sacramental sustenta e anima o caminho do cristão, como justifica o fato de que a Reforma acabou com seis dos sete Sacramentos? Chama a isso de “progresso”?


Como não o conheço pessoalmente, pastor Hugo, lamento lhe assegurar que o diálogo entre as religiões não deve absolutamente fundamentar-se em julgamentos gratuitos e partidários, mas no respeito recíproco, que deve levar as partes a um crescimento e apreciação da doutrina cristã. E, de acordo com o emérito Papa Bento XVI, que quando Cardeal, foi meu professor de Patrística, no curso de mestrado em Bíblia, na Faculdade do Vaticano, o importante e fundamental é que saibamos apreciar juntos, amigo Hugo, as obras e as iniciativas que a religião nos proporciona em benefício das pessoas que estão sedentas de Deus.


Ao término da leitura do artigo, fui direto à Capela da casa religiosa onde moro, aqui em Bauru, e diante da presença eucarística de Jesus, o qual a Reforma continua até hoje negando, invoquei as luzes do Espírito Santo, para que o diálogo fraterno leve todos os cristãos a se reconhecerem como irmãos, diante do mesmo Pai. Se a Reforma despertou o estudo da Palavra de Deus, cabe a cada um de nós o empenho de aprofundar seu conteúdo, à luz do ensinamento do Magistério da Igreja.