| Douglas Reis |
| Marcha do Orgulho Crespo marcou 2.º Encontro de Crespos e Cacheados em Bauru, ontem |
“Cabelo crespo não é moda, é DNA. Ele foi silenciado, mas hoje o negro não quer mais se calar, seguir um padrão... Quer ser ele mesmo”, declara Ivana Santos, uma das organizadoras do 2.º Encontro de Crespos e Cacheados, realizado nesse sábado (12) à tarde, em Bauru.
A ideia é ponto de partida da Marcha do Orgulho Crespo, que neste sábado saiu da Praça Rui Barbosa e desfilou pelo Calçadão da Batista de Carvalho com fios encaracolados em diversos estilos rumo à antiga Estação Ferroviária.
Lá, membros e simpatizantes do movimento “Orgulho crespo” se uniram a outros grupos para uma mesa de conversa sobre temas como empoderamento afro, a construção da identidade da mulher negra e a resistência ao racismo.
“Certamente vamos falar da eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. Parece longe, mas esse discurso racista, de ódio, vai respingar aqui. E todo o trabalho que a gente teve? Dá muito medo”, avalia Ivana Santos.
As atividades, que têm o apoio da Casa do Hip Hop e da Associação Cultural das Tradições Afro-brasileira de Bauru (ACTAB), integram a programação do “Mês da Consciência Negra”.
LIBERDADE
Por que enfatizar o visual dos fios? “É muito mais que um cabelo. É uma forma de dizer que a gente está aqui. Para muitas pessoas os crespos são uma ofensa, incomodam”, lamenta Ivana.
De acordo com ela, isso tem um preço, que vai de comentários maldosos à perseguição, incluindo fim de relacionamentos e perda do emprego. “De repente, a pessoa não se adequa mais ao perfil da empresa quando se nega a alisar ou prender os cabelos. Isso acontece, e muito”, denuncia.
O movimento “Orgulho crespo” não dita regras, nem diz que não pode mais alisar. Apenas acredita que é importante passar pelo processo de deixar os fios naturais para a mulher negra redescobrir sua identidade e se sentir bem como ela é, explicaram durante o evento.
Nina Barbosa, conhecida por ensinar a usar turbantes típicos da cultura negra, é prova disso. “Eu uso fios crespos e brancos como resistência. Eu me sinto mais bonita e mais jovem. Era uma escravidão. Quando mais nova, alisava e me sentia artificial”.
Quem adere, nem sempre recebe apoio. “Eu fazia progressiva e há quatro anos deixei o crespo. Vejo olhares tortos, só que me sinto livre. A gente conhece a si mesmo e nossa origem. Até na família tem gente que diz apoiar, mas reclama que está muito armado. Eu nem ligo”, ensina a estudante Vitória Shimiguel.
Engajada, ela levou para a marcha a amiga, Ana Júlia Nascimento. “Aqui estou me sentindo acolhida com meus cabelos enrolados e coloridos!”.
E o assunto não atinge só mulheres. “Vim porque é uma questão de representatividade. Sempre gostei do meu cabelo, mas o racismo sobre o visual atinge também os homens”, disse Fernando Pereira da Silva.