08 de julho de 2026
Geral

Casa na árvore leva alegria a favela

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
Luiza e Taylor; casa foi construída para o garoto por sua avó, no Jardim Europa

O espírito de Natal já chegou ao Jardim Europa. Mas, por lá, nada de pinheiros enfeitados e luminosos. As árvores do próprio local é que deram asas à imaginação e viraram um "Mundo Encantado" para as crianças. Pelo menos, é assim que Solidade Roque Moreira, 40 anos, chama o espaço, uma espécie de playground natural, que criou nos últimos anos, e que, há quatros meses, passou a abrigar uma casa na árvore.

"A casa na árvore era, na verdade, o presente de aniversário e Natal do Taylor (neto de 2 anos), mas as crianças gostaram e, como não há muitas opções por aqui, abrimos para todos brincarem", comenta Solidade Roque, mais conhecida como Fuá. Ela virou uma espécie de monitora do local, que fica no terreno ocupado pela família Roque, em uma das vielas da comunidade.

Todos os dias, ao menos 30 crianças aparecerem por lá para brincar. "Eu brinco todo dia de casinha aqui depois do projeto, é muito legal. E tem dia que fica muita gente", afirma Luíza Barbosa, 7 anos.

A casinha virou realidade após doações de tábuas e com os "suados" R$ 500,00 que Fuá juntou vendendo sabonetes e produtos usados em um brechó na comunidade.

Mesmo "dura", ela optou pela atração ao invés de melhorias no próprio barraco. "A gente só tem água encanada em casa, esgoto não, mas vamos nos virando como dá", conta a mulher.

REGRAS

A casa na árvore possui cerca de 4 metros quadrados e foi construída a um metro e meio do solo.

Localizada mais precisamente sobre as raízes da árvore, a casinha era um sonho de infância antigo que Fuá resolvei realizar para presentear seu primeiro neto. "Ficou melhor que muito barraco por aqui. Tinha gente até querendo morar lá", brinca Fuá.

Justamente por isso e pela demanda de crianças foram criadas regras para o uso do espaço. Uma placa em letras garrafais na entrada proíbe a entrada de adultos no "Mundo Encantado". E a casinha é trancada com cadeado à noite. "Não dá para bobear, aqui tem muito bêbado", acrescenta.

SEM CELULAR

Celular ou computador, só de brincadeira. "Meninos brincam só com os meninos, e meninas só com meninas. E, se sair briga, eu fecho tudo. Eles têm que aprender a compartilhar", pontua.

Tudo isso justificado por uma filosofia de vida "à la Fuá". "Criança tem que brincar no barro, tem que fantasiar, tem que se sujar. Essa história de ficar vendo TV e em celular não é saudável. Aqui, ensinamos que eles podem ser felizes com o que têm, não precisam de tecnologia e essa coisarada cara", acrescenta a moradora.

ESPERANÇA

O "Mundo Encantado" surgiu depois da casinha, mas, antigamente, outras duas cabanas com galhos e folhas, davam asas à imaginação dos pequenos. "Eu brincava debaixo desses cipós quando era pequena, mas sempre sonhei com uma casa na árvore assim", comenta a mulher, uma das primeiras moradoras do Pq. das Nações.

Dona de uma infância pobre e com poucos recursos, assim como quase todos os moradores da comunidade do Parque das Nações, atualmente, Fuá volta a ser criança no mundo surreal que parece ludibriar a miséria. Cada estrutura no "Mundo encantado" tem nome, ligado à contos infantis, como Chapeuzinho Vermelho e Malévola.

Até o final de 2016, a moradora planeja envernizar e construir um piso térreo na casinha, com objetivo de aumentar o espaço para as crianças mais novas. "E quem sabe até enfeitá-la com umas luzes de Natal, já que vamos comemorar a virada do ano por aqui mesmo", diz a mulher, com olhar de esperança voltado à casinha.

Na falta do poder público

A região do Parque das Nações, que inclui as comunidades do Ilha de Capri e Jardim Europa, possui, atualmente, 230 famílias assistidas por programas da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes). A Secretaria Municipal de Eportes e Lazer (Semel), contudo, diz que não tem previsão de implantação de qualquer equipamento ou espaço de esportes e lazer por lá. Alegando falta de recursos, a prefeitura promete, para 2017, apenas melhoria na iluminação da quadra poliesportiva construída no bairro, com patrocínio do Rotary Clube. Este é o único dispositivo público de lazer e esportes no local hoje. Aliás, o segundo, já que o local tem agora a casa na árvore e o "Mundo Encantado".