10 de julho de 2026
Articulistas

Enlameados e alaranjados

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Esperneiam agora. Outrora, pernas pra que te quero em farras no exterior. Enjaulados no momento. Antes, livres para roubar. Antigamente, aliás, dizia-se que só peixe pequeno acabava na cadeia. As coisas mudaram: outrora temidos, tubarões agora se apavoram. "Eu quero é mais", respondeu o jornalista Chico Pinheiro ao ser questionado em seu Twitter sobre o que achou das prisões de Cabral e Garotinho. Mas o sentimento nacional ainda não é de alma lavada: paira a dúvida sobre uma "certa seletividade" na escolha de alvos das operações. Estaria, enfim, algum partido sendo poupado?

Seja como for, a história vem sendo escrita com letras garrafais. Corruptos que não enxergam isso precisam de óculos - e de semancol. Esperneiam agora, mas gritar é bobagem. Estamos exatamente no ponto crucial em que até o "modus operandi" das defesas, definitivamente, muda de foco. No passado era comum, diante de uma ou outra pouca prisão, logo surgirem badalados advogados com discurso pronto sobre a irrefutável inocência de seus abastados clientes. Hoje o negócio é reduzir a pena.

Mérito da Lei 12.850/2013 sobre combate às organizações criminosas. Ironia do destino: políticos que a aprovaram, hoje, provam de seu doce veneno. Soma-se a isso a notória incompetência de governantes (tal qual kryptonita a reduzir seus poderes) aliada à equivocada manutenção dos mesmos métodos de corrupção que funcionavam até então, mas não o bastante diante dos tempos que correm - e que pegam quem tenta correr. Se a coisa anda azeda para os medalhões o mesmo não se pode, contudo, dizer dos "laranjas". Quem sabe, em breve, não teremos meios legais para iniciar uma nova onda de operações apenas contra os testas de ferro. Que tal?

Porque imóveis nas avenidas Paulistas e Atlânticas da vida seguem livres de confiscos - em nome desses alaranjados apoiadores do crime. São tão enlameados quanto. Merecem destino similar: cabeça raspada, olhar perdido, liberdade tirada e punição exemplar. Sem seletividades, por favor.