11 de julho de 2026
Articulistas

O ?U? continua, mas a recuperação será mais lenta do que o previsto

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Tenho utilizado a letra “U” para ilustrar em que momento está a economia brasileira. Depois de observar queda no Produto Interno Bruto, que nos levou à recessão, representando a primeira perna do “U”, a leitura era que estávamos chegando no lado inferior da letra, portanto, em sua barriga, indicando que ainda haveria queda neste fim de ano, estabilidade no primeiro trimestre do ano que vem, para em seguida começar, mesmo que lentamente, a subida, ou seja, a recuperação econômica.


O que mudou? O que podemos denominar de efeito Trump. O nervosismo tem imperado no mercado. Um dos indicadores que ilustra este efeito é a cotação do dólar. O Brasil operava um pouco antes da eleição do novo presidente dos Estados Unidos com um dólar comercial na casa dos R$ 3,20, rodeando inclusive o nível de R$ 3,10. Alguns analistas apontavam para um dólar abaixo de R$ 3,00. Atualmente o dólar oscila na casa dos R$ 3,40 uma apreciação na ordem de 7%. Este nervosismo, que impõe volatilidade no mercado cambial e também no mercado acionário, faz com que os agentes econômicos se retraiam, adiando ações mais contundentes na direção da retomada da confiança na economia.


Esta constatação tem ligação direta com a possível realimentação da inflação brasileira, nada que descambe, mas dificulta ações mais firmes na direção da redução da taxa de juro básica. É que os preços internos podem ser contaminados pela inflação importada, à medida que importantes produtos, tanto os importados como os de cotação internacional, tornam-se mais onerosos em Reais. Aumentos de custos tendem a ser repassados aos preços finais. Inflação com queda mais lenta retarda a queda nos juros. A sinalização do Banco Central na ata da última reunião do Copom, anterior à eleição de Trump, era de quedas mais expressivas daqui para frente, posto que a inflação projetada já entraria na banda fixada como meta, ou seja, menos de 6,5% ao ano, para em seguida se aproximar da meta de 4,5% ao ano. A inflação importada, mais a desconfiança dos agentes econômicos, podem forçar a revisão desta estratégia.


Com isso o consumo das famílias seria menor, afetando todas as demais variáveis da demanda agregada, principalmente os investimentos e os gastos do governo, incluindo a continuidade na queda da arrecadação tributária (fruto da menor geração de riquezas). Tudo isso nos força a rever as estratégias. Não há dúvidas que o crescimento econômico virá, mas, escaldados, não podemos apostar todas as fichas imaginando que isso se dará virando a chave no dia primeiro de janeiro do ano que vem. Será um longo caminho e o indicativo é que isso ocorra mais próximo ao segundo semestre do que no primeiro semestre do ano que vem.


A adequada leitura dos sinais do mercado é sinônimo de sobrevivência das organizações e da boa qualidade de vida pessoal. Infelizmente o Brasil precisa avançar muito na base da economia para garantir crescimento sustentado ao longo do tempo. O “U” está instalado e pode ser considerado “obeso”, ou seja, tem uma barriga muito maior do que seria necessário. Sem dúvida alguma, teremos de ser mais pacientes e estrategistas.


O autor é economista e articulista do JC