Na mesma trilha da opção por alimentos naturais para os humanos, ganha adeptos entre donos de pets a adoção de alimentação não industrializada, sobretudo para animais de pequeno porte. Mas, entre especialistas, a ração permanece indicada como a forma mais adequada para garantir consumo balanceado de nutrientes por cães e gatos. No centro da discussão que envolve o bilionário mercado de Pets estão os grupos que questionam o uso da ração como alternativa, quase unânime entre veterinários e os que apontam deficiências nutritivas na opção pelo alimento na forma caseira.
| Nélson Gonçalves |
| Médica veterinária Luciana Ferreira Domingues pondera que dieta natural exige tempo e orientação para não haver deficiência de nutrientes |
Doutora em medicina veterinária pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, Luciana Ferreira Domingues aponta para os dois lados da questão. Dona de cinco cães, ela se desdobra, com a ajuda da mãe, no preparo de alimentação natural para seus animais domésticos, mas como profissional pondera para possibilidade concreta de deficiências na dieta não industrializada. “O processo de industrialização da ração, à base de muito calor, gera perda de nutrientes. Mas a norma obriga a suplementação para atender à necessidade. Então, as rações mais vendidas no mercado garantem o balanceamento. Já a dieta caseira exige conhecimento, orientação e dedicação para o preparo, além do comprometimento do dono com essa rotina. O custo, a disponibilidade para a compra e preparo e a dificuldade em conseguir o balanceamento adequado tornam a dieta caseira desfavorável”.
A veterinária conta que buscou cursos de extensão para ampliar sua especialização. “Como dona de cinco cães e profissional tenho de alertar que a dieta é individual. Mesmo a caseira, o que um cão meu come, outros dois não gostam. Uma fêmea é intolerante a ração, então tive de tirar para acabar com uma alergia. Já com outro não funciona assim. A dieta é personalizada por kilocaloria. A Fendi tem tendência à obesidade e a July não. E são da mesma raça. Cada uma tem uma dieta. A praticidade fez da ração a aliada dos donos, mas ela garante a dieta balanceada, embora seja processada”, argumenta Luciana, que tem um freezer ocupado só para o acondicionamento dos alimentos de seus cães.
Apesar disso, Luciana prefere a dieta natural para evitar que seus animais consumam o alimento industrializado. “Fiz cursos específicos da dieta natural e o preparo em casa evita que meus cães comam produtos com acidulantes, ou adoção de ingredientes que estão no processamento industrial. Outro fator desfavorável à ração é ser à base de grãos, de baixa digestão pelos animais. Petiscos não recomendo nenhum, porque contêm sódio. A facilidade da ração, o balanceamento e o custo tornam ela adequada e atrativa. E a dieta natural para não ser deficiente é mais cara que a ração na ponta do lápis”, comenta.
Naturalista na escolha pessoal, a veterinária reconhece a eficiência nutricional da ração. “O cão precisa de carne, vegetais e frutas. A ração só tem 80 anos no mercado, mas é inegável que ela é completa e garante a diversidade de nutrientes e o balanceamento que os animais precisam. O controle sobre a linha premium garante os níveis de qualidade. Antes da ração, cães e gatos comiam o mesmo que o humano, dos restos do que é feito em casa e isso é ruim”, comenta.
HUMANOS
De sua parte, o professor José Roberto Sartori, da Unesp de Botucatu, considera que o problema esteja nos humanos. “O raciocínio da alimentação saudável para o ser humano não pode ser aplicado para cães e gatos. Tudo é diferente. A ração é preparada para atender toda exigência da dieta animal. Mas o problema é humanizar o animal de estimação e querer adotar para ele o que nós achamos.
A alimentação natural, caseira, não vai atingir o balanceamento. Se ver pelo lado de linha de pesquisa, a comida vegana é incompleta para o humano, mas muitos adotam. Os químicos da industrialização preocupam sim, mas também não há evidência de que eles são responsáveis por doenças”, avalia. Para Sartori, o problema é o extremismo. “Em tudo, o extremo não faz bem. Uma xícara de ração super premium atende, mas o dono dá várias e ainda entope o cão com guloseimas. A obesidade em pets é por dieta exagerada, comer muito, só isso. O problema está no extremismo e no dono, não na ração”, finaliza.
Comportamento do consumidor
A preocupação com o alimento industrializado está posta à mesa entre os consumidores. Marta Caputo conta que modificou os “hábitos” de seus bichos ao buscar informação sobre aumento de doenças ligadas ao consumo de alimento industrializado.
“Comecei a introduzir a alimentação caseira diante de informações convalidadas pela ciência de que a dieta só à base de ração industrializada aumentou exponencialmente os casos de câncer tanto em cães quanto em gatos. Assim como em humanos, alimentos industrializados tiveram os mesmos efeitos nos últimos 100 anos. Então, procuro proporcionar pelo menos uma refeição caseira por dia para os meus”, diz. Ela diz que segue as dicas do site Cachorro Verde.
Já Maria América Ferreira posiciona que sua “cachorra está com 15 anos e come ração sem corantes, além de frutas e legumes. Já passou por tratamento com alimentação caseira, para diminuir uma crise de coceira, incluindo aplicação de mocha”. Ela também leva em conta atendimento com veterinária adepta do processo natural de alimentação, incluindo acupuntura no tratamento. Tatiana Calmon cita que sua cachorra come ração, mas também adora legumes e frutas. “E ela ama pipoca, autorizada pelo veterinário”. Outros donos de Pet apontaram a paixão dos bichos pela pipoca.
‘Não tem sentido a ideia de que o alimento industrializado é prejudicial’
| Doutor em nutrição animal, Aulus Cavalieri defende a adoção de uma dieta à base de ração |
Considerado o principal especialista no Brasil em pesquisa de nutrição animal, o doutor pela Universidade de São Paulo e professor da Unesp de Jaboticabal, Aulus Cavalieri Carciofi, defende a ração. “Não tem sentido a ideia de que o alimento industrializado é prejudicial aos Pets. Quando se fala em evitar alimentos processados para o ser humano, nós falamos na adição de açúcar em concentrações elevadas e outros males. Mas falamos em bolos, doces, mas industrializados, falamos em refrigerante, que é puro açúcar. Se você comer uma pasta de macarrão integral, ou pão integral, me desculpe, isso não faz mal por ser processado”, aborda.
Conforme o especialista, a ração do cachorro é composta da grãos integrais, carnes moídas e cozidas com calor e pressão. “Não vai química nisso. Depois, para isso durar na prateleira, são usados antioxidantes, que são na manteiga, no óleo, nas bolachas, que inclusive são aprovadas para o ser humano. Corante eu pessoalmente não gosto, mas são também aprovados e estão na bala, na bolacha. É o mesmo corante que vai na ração”, diz.
Aulus critica o “achômetro” na área. “Não só não há evidência da relação do uso de ração, ou seja de alimentos processados, com câncer em animais como é o contrário. Os animais têm vivido mais e as rações são mais nutritivas. A porcentagem de cães e gatos idosos hoje é muito maior. Aparece câncer, mas muito mais associado à própria idade dos cães, ou outros fatores, e não relacionado à alimentação industrializada à base de ração”, lança.
Para o doutor em veterinária é preciso olhar para o tempo nesta temática. “Antigamente, os cães, por exemplo, morriam de doenças simples, por desnutrição e outras causas. E nem dava tempo de ter câncer, porque morria com pouco mais de cinco anos. A ração atende aos requisitos de nutrição balanceada e vem suplementada. Não há razão para associar doenças com ração. O estilo de vida, a longevidade e fatores genéticos e do ambiente interferem na saúde do homem e dos animais. Hoje se morre muito mais por obesidade, por sedentarismo, maus hábitos, do que por outros fatores. Nos animais, a ração é fator positivo e ajudou o cão a viver mais. O desconhecimento e o achismo atrapalham tudo”, adverte.
Aulus também esclarece sobre o processamento da ração. “O alimentando enlatado para animais não tem conservante. Ele é processado por calor. É o mesmo que você colocar palmito dentro de uma panela de pressão de deixar lá fervendo por meia hora. É igual a avó faz o doce em calda em casa, que fica fervendo no tacho. É processo que usa calor, não tem química, não tem conservante”.