08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mas tem que devolver essa criança?

Hilário Nunes da Silva
| Tempo de leitura: 2 min

Quando decidimos participar da Família Acolhedora, ou melhor, do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora, que tem por objetivo promover atendimento temporário em ambiente familiar de crianças e adolescentes afastados de suas famílias por meio de medida protetiva, e a pessoas ficavam sabendo que aquela criança que estava no nosso colo era deste tipo de serviço, respondíamos a muitas dúvidas, mas a mais comum, presente em 99% das conversas, era: "Mas você tem que devolver essa criança?"

Essa pergunta, como disse, é  a mais comum e é a que desestimula aparentemente as pessoas a participarem desse projeto. Recentemente, há poucos dias mesmo, me fizeram a pergunta outra vez: 

- Mas, Hilário, Márcia, vocês têm que devolver?

Então, respondi: - Sim, temos que devolver. 

Toda pessoa que queira assumir o papel de acolhedor tem que estar capacitado a amar, a doar-se. Obviamente a boa vontade nem sempre vem ao encontro da eficiência, quer dizer, saber amar é um processo diário, que inclui dedicação, paciência e algumas decepções. Quando falo em dedicação, falo em abrir nossos corações e libertarmos  do egoísmo, de mudar radicalmente nossos costumes diários,  pois sabemos que ao assumirmos esse compromisso nossa vida se altera radicalmente: levar para dar vacinas, médico, raio-X, exames e eventualmente esperar até alguns dias no Pronto Atendimento Infantil para o bebê ser internado no Hospital Estadual, acordar de madrugada para dar leite, inalação, trocar fraldas etc

Então, quando a pessoa nos informa que não poderia participar desse programa porque "tem que devolver a criança", penso comigo que essa resposta se afasta um pouco da realidade, porque mexe com a normalidade de nossas vidas, e com todas as nossas minhocas, como a insegurança: a sensação de incapacidade diante de um "problema" que poderia ser evitado, a pessoa se apega a esse jargão.

Todavia, o que as pessoas esquecem é que quando entregamos essa criança que ficou conosco vários meses, ela vai para um lar e vai continuar a ser amada por nós e agora pelo casal que a adotou, ou pela família de origem, pois não deixamos de amá-la só porque ela foi embora... De nossa memória, dos filmes, das fotos, roupinhas, beijos, sorrisos, o primeiro engatinhar, os dentinhos, jamais esqueceremos, sem falar que se a família assim optar, poderemos manter contato mesmo depois da adoção.

No princípio, ficávamos estressados com essa pseudo vênia, mas hoje percebemos que ser família acolhedora é tão grande, tão precioso, que não há com o que se ofender.

As pessoas são curiosas e por isso perguntam; só por isso. Cabe a nós entender e dar a resposta certa para cada pessoa, que sirva como uma luva, pois temos ali, que sabe um bom candidato acolhedor. Nós sentimos plenos, maravilhados, cheios de amor, que é um dos poucos sentimento em que quanto você mais dá, mais você ganha.

A resposta certa, então, para mim, é: sim, temos que devolver... e explicamos o porquê.