Brasília - A Procuradoria-Geral da República (PGR) requisitou oficialmente à Polícia Federal, ontem, o encaminhamento dos áudios gravados por Marcelo Calero, ex-ministro da Cultura, em conversas com autoridades sobre um edifício embargado em Salvador. O argumento é que a PGR precisa ter em mãos todos os elementos probatórios para decidir se solicita ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito sobre autoridades que tenham foro privilegiado no tribunal. No caso, poderiam ser afetados o presidente Michel Temer e o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil).
Em entrevistas e em depoimento à PF, Calero afirmou que foi "enquadrado" por Temer e procurado por Padilha para resolver uma questão de interesse do então ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo).
Geddel queria que um parecer do Iphan (instituto do patrimônio histórico), subordinado ao Ministério da Cultura, fosse revisto para liberar a construção do prédio La Vue Ladeira da Barra, onde ele tem um apartamento.
No caso de Geddel, com sua demissão, ele perdeu o foro privilegiado, e um eventual inquérito sobre sua conduta deve, em tese, tramitar na primeira instância.
O ex-ministro da Cultura prestou depoimento à PF no último dia 19. Segundo a reportagem apurou, a PF recebeu os áudios de Calero e entendeu que não poderia realizar uma perícia sem que uma investigação formal tivesse sido aberta. Os policiais, então, resolveram fazer uma análise das gravações.
A Polícia Federal analisaria, ainda nesta segunda, se houve alguma edição nos áudios e se os trechos são audíveis, para eventualmente transcrevê-los e depois encaminhá-los à PGR.
O procedimento da PF, porém, gerou críticas de integrantes do Ministério Público Federal. No entendimento de procuradores, as gravações deveriam ser enviadas diretamente à PGR, a quem compete solicitar ao STF abrir inquérito. Até o início da noite, a procuradoria não havia recebido o material.
Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, no domingo (27), Calero contou que foi orientado por amigos policiais federais a gravar conversas para dar lastro às suas denúncias. Ele negou ter gravado Temer em reunião no Planalto, como a assessoria da Presidência havia sugerido.
Com Temer, foi gravada, segundo o ex-ministro, somente uma conversa por telefone, "protocolar", na qual ele pediu demissão.
Conforme a reportagem apurou, Calero teria gravado ao menos Padilha e Gustavo Rocha, subordinado ao ministro da Casa Civil e assessor jurídico da Presidência. As conversas ocorreram por telefone.
O depoimento de Calero foi tomado no Rio pelo delegado da Polícia Federal Josélio Azevedo de Sousa. No ano passado, Sousa entrou no foco do noticiário ao defender, em representação enviada ao Supremo Tribunal Federal, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse ouvido como testemunha nas investigações da Operação Lava Jato.