08 de julho de 2026
Articulistas

Não é vontade de Deus!

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

É relativamente comum ouvir ou ler através da mídia expressões associadas aos acidentes, sejam eles de trânsito, aeronáuticos etc do tipo fulano morreu, mas “foi vontade de Deus”, “Deus quis assim”, “foi fatalidade”, “chegou a sua hora”. Usar expressões desta natureza indistintamente, segundo o teólogo e escritor inglês Leslie Weatherhead, “é convidar o desastre emocional e intelectual para se instalar no mundo e em nossas vidas”. Para ele, não se pode identificar como vontade de Deus algo que conduza à morte, à invalidez de seus filhos amados.


Tem-se um exemplo bastante recente e de grande repercussão mundial, que foi a queda do jato Avro RJ 85 da companhia boliviana LaMia, que conduzia a delegação de atletas, dirigentes e jornalistas para Medellín, na Colômbia. O acidente deixou 71 mortos e outras 6 sobreviveram. Esta tragédia não foi acidente, tampouco foi fruto da vontade de Deus.


A vontade de Deus era de que o plano de voo fosse adequado, que houvesse combustível para chegar ao aeroporto alternativo e que a aeronave pudesse sobrevoar o aeroporto alternativo por cerca de 45 minutos. Nada disso foi feito, pelo menos é o que apontam os levantamentos iniciais sobre a queda.


Portanto, esses dados indicam que não foi um acidente e sim um acontecimento motivado pela desídia por parte de pessoas que têm responsabilidade sobre as vidas transportadas na aeronave.


Também não foi fatalidade. A fatalidade pode ser considerada um destino que não se pode evitar. Também a morte da motociclista que foi “atropelada” no semáforo não foi vontade de Deus. Se os freios falharam, algo de errado existe. Alguma falha humana ocorreu. Se o jovem passageiro do mototáxi foi atirado ao solo na rodovia e o caminhão passou sobre o seu corpo, também não foi vontade de Deus. Algo foi feito de errado para que ocorresse a queda, com o posterior atropelamento por parte de outro veículo.


Se aquele motorista que bebeu, pegou o seu carro e atropelou uma pessoa não tivesse bebido ou tendo bebido não dirigisse, a pessoa não teria sido atropelada. Se outro veículo não tivesse atravessado o sinal vermelho, aquele motociclista não teria sido fatalmente atingido. Se o carrão do jovem não estivesse a 150 km/h naquela rodovia, não teria ceifado a vida daquele ciclista.


Enfim, na maioria dos casos os acidentes acontecem por falhas humanas. Às vezes, por uma série de falhas. Sabe-se que mais de noventa por cento dos registros de acidentes poderiam ser evitados. Qual seria o motivo para considerar um fato que pode se evitado como sendo a vontade de Deus? Ou porque “chegou a sua hora”? Talvez tornar a dor menos intensa. A vontade de Deus é que todos cumpram as leis de trânsito, que sejam prudentes, que respeitem os seus semelhantes.


Deus quer que seus filhos vivam bem, em paz, em unidade com as pessoas. Qualquer comportamento fora disso, é vontade de Satanás e não de Deus.


O autor é especialista em trânsito e transportes, docente da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag.