O escândalo político recente colocou em dúvida a palavra do ex-ministro chefe da Secretaria do Governo, Geddel Vieira Lima, falando como comprador de um apartamento do Edifício La Vue, em construção na orla baiana de Salvador, entremeado a prédios tombados por órgão federal, portanto, protegidos por lei contra obras posteriores ao ato de restrição que impeçam a visão deles.
A ampla cobertura jornalística sobre esse episódio, adicionados a tantos tumultos envolvendo políticos nos últimos tempos, e por certo, as pesadas condenações impostas pelo juiz Sérgio Moro por crimes lesivos ao patrimônio da Petrobrás, indicados na operação Lava Jato, não bastaram para amedrontar parlamentares inclinados à prática de desonestidade - e o caso do Edifício La Vue certamente não encerrará esse ciclo desastroso encenado por políticos. A ousadia de enfrentar o risco pelo dinheiro sujo e de levar vantagem em outros interesses, superam o senso comum da decência.
Na coluna "Fórum dos Leitores" do Jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 23 último, onde leitores esclarecidos em assuntos políticos expõem suas idéias, um deles arriscou revelar seu pensamento sobre a aquisição do apartamento do prédio em construção pelo ex-ministro Geddel Vieira de Lima, dizendo que a unidade do 23º °andar (que se encontra em nome da construtora, segundo outro leitor) foi prometido como presente a Geddel, caso ele conseguisse por sua notória influência, convencer o Iphan, apêndice do Ministério da Cultura, a liberar o prédio do embargo imposto pelo mesmo órgão.
Esse pedido consumou-se por meio de alguns telefonemas ao então ministro da Cultura, Marcelo Calero, e, segundo o noticiário, não se tratou propriamente de um pedido protocolar entre colegas de Ministério, mas sim uma imposição equivalente a ordem para que o ministro da Cultura orientasse o Iphan no intuito de reconsiderar sua decisão, liberando o prédio da interdição. Discordando da ingerência e, com maior razão o ato de interferir no trabalho do órgão responsável pelo tombamento, embora estivesse subordinado ao seu Ministério, aquilo soou nos seus ouvidos como uma determinação de "quebrar o galho" para o colega. Agiu acertadamente ao encaminhar pessoalmente a delicada questão ao Presidente da República que buscou na neutralidade a recomendação para encontrar uma fórmula pacificadora do questionamento. Entendido ter havido persuassão nessa audiência com o presidente Michel Temer sugerindo procurar uma saída para atender o pretendido pelo então ministro Geddel, e pressionado no reencontro ocorrido em sequência, sentiu-se a parte mais fraca e desprestigiada desse episódio, desconforto que o levou a pedir exoneração do cargo, retomando suas funções diplomáticas.
A inflexibilidade do ex-ministro da Cultura, que não suportou a ordem arrogante de seu colega de Ministério, o qual desejava vê-lo de joelhos ao seu interesse, associado ao sentimento de derrota numa causa onde a medida administrativa do Iphan que se desejava mudar contrariava uma decisão provinda do estudo de órgão colegiado, reprovando a presença de um prédio de 30 andares no centro de bens tombados, fez com que só lhe restasse pedir a conta do Ministério da Cultura evitando um desgaste maior prometido pelo desdobramento do assunto, caso perdurasse sua convicção.
A desavença virou objeto de investigação e Geddel minimizou o fato, desmentindo qualquer coação sobre seu colega. Defendeu-se dizendo ter solicitado um reestudo da restrição imposta ao prédio em construção para livrá-lo dos embargos. Esse político, que também deixou o Ministério, tem o perfil de velha raposa da política com envolvimento no episódio conhecido por "anões do orçamento", no ano de 1993, suspeito dentre outros 36 parlamentares de receber propina a título de manipular emendas a favor de empreiteiras.
Esse problema seria evitado caso a Prefeitura Municipal de Salvador atuasse com as cautelas esperadas ao ouvir o Iphan antes de fornecer justamente o alvará de licença para a construção do edifício. Mas será que teria interesse nessa prudente e necessária diligência?