09 de julho de 2026
Articulistas

Vontades desafinadas

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 2 min

Noites são momentos propícios para que sejam urdidas e executadas grandes safadezas porque ensina a sabedoria popular que na escuridão noturna os gatos se misturam e todos eles parecem pardos, facilitando disfarces e dificultando identificação e reconhecimento.

    

É mais ou menos assim que se costumam explicar os acontecidos, geralmente safadérrimos, cometidos na calada da noite. Assim ocorreu, aliás, na triste semana finda marcada pela lastimável tragédia chapecoense no iluminado cenário da Câmara dos Deputados. Então, era noite e foi na calada da noite. Mas a iluminação do ambiente e a votação nominal recolhida e armazenada perenemente no painel eletrônico de votação identificaram um a um os deputados que traíram suas representações e apartaram-se da vontade do povo seu representado para exprimirem vontade pessoal de desnaturar proposta de iniciativa popular legislativa de combate à corrupção subscrita por cerca de dois milhões e meio de brasileiros. A proposta, diga-se, tinha pontos intoleráveis merecedores de correção, nada justificando seu desnaturamento.


No rescaldo desse episódio desponta e aflora o mais grave dos defeitos da democracia representativa quando cidadãos perplexos podem enxergar, seja dia ou noite, a existência transparente e clara de vontades divergentes e destoantes, quiçá conflituosas, entre representados e representantes que estranhamente soam discordantes e desafinadas. Esse dissenso político-representativo tão trágico quanto à dolorosa tragédia chapecoense só tem uma única solução apontada nos manuais de ciência política: o voto futuro conferido e encaminhado para suprimir os representantes divergentes que traíram a legítima representação que detinham e que ainda a deterão até o fim de seus mandatos. E isso, no caso, significa espera mínima de quase dois anos até as eleições parlamentares de 2018. Pelas regras democráticas que sempre devem ser preservadas muito triste e ainda muito longo o tempo de espera que, no geral e infelizmente, facilita o esquecimento.


Entretanto, nosso povo que dia a dia exibe sinais de ter adquirido certeza de que está muito mal representado fechou a trágica semana exibindo ruas insatisfeitas com a atual representação política aparentando grau, infelizmente ainda incipiente, de mobilização permeando quase todos os quadrantes nacionais, com níveis expressivos de insatisfação. Será importante que persista o esforço geral e coletivo de mobilização. Na democracia representativa indispensável ter mobilização e paciência porque são apenas eleições periódicas que afastam maus representantes e aprimoram e qualificam a representatividade.


A safadeza cometida com propósito torpe que desnaturou proposta de iniciativa popular destinada a aperfeiçoar controle nacional contra a corrupção constitui evento grave enquanto exibiu representantes eleitos – perenemente identificados - a exprimir vontade divergente da vontade dos representados. Mas isso no fundo não ameaça seriamente e nem atrapalha o funcionamento das instituições e nem tem maior significado afora alertar necessidade de vigilante mobilização para suprimir mandatos de representantes que desafinaram nos futuros processos eleitorais. A democracia e assim e funciona assim. Mobilização e paciência, ajudam muito no aprimoramento democrático.


O autor é advogado, articulista do JC e estará em férias até fevereiro de 2017.