09 de julho de 2026
Articulistas

O terreno da galhofa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No tempo da ditadura militar, o cronista carioca Stanislaw Ponte Preta compôs o “Samba do Crioulo Doido” em homenagem aos que não conseguiam entender o Brasil, nem no passado e muito menos no presente. Para denominar o conjunto da sua obra o humorista criou o acrônimo Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País. Uma das personagens, Tia Zulmira, representava a racionalidade, a coerência e a inteligência do povo, ainda preservada. Diante das peripécias das autoridades para se justificarem como representantes do povo, da ordem e da justiça, ela advertia que o país desembestava “pelo resvaladio terreno da galhofa”.

    

Lembrei-me do saudoso Sérgio Porto – nome verdadeiro do Stan – quando li a sequência de fato envolvendo a decisão monocrática (já é uma piada) do ministro Marco Aurélio, concedendo liminar para afastar Renan Calheiros da presidência do Senado. Ele se tornara réu em processo de peculato, por desvio de verbas do próprio gabinete para pagar a pensão da filha fora do casamento. Por decisão do plenário do STF, Renan foi mantido no cargo, mas não poderá substituir Temer em eventual vacância, na condição de terceiro da linha sucessória.


A sabedoria popular logo fez circular pela rede a hipótese do jogador de futebol que é expulso de campo, continua jogando, mas não pode marcar gol. No caso do impeachment Dilma, Lewandowski já havia fatiado (outra piada) a Constituição. A ex-presidente perdeu o cargo por irresponsabilidade fiscal, mas continua elegível. Dois dias depois de fugir do oficial de Justiça que foi intimá-lo no Senado, Renan declarou que “decisão judicial não se discute, cumpre-se”.

     

O senador Jorge Viana, do PT, que deveria ocupar a presidência no impedimento do titular, foi o que mais trabalhou para manter Renan. Inclusive esteve no STF para entendimentos com a ministra-presidente Carmen Lúcia. No domingo anterior, a militância do PT gritava nas ruas, “fora Renan”. Viana justificou o seu esforço heroico para “salvar as instituições em frangalhos”, no momento em que a Casa se prepara para votar a PEC do Teto de Gastos Públicos. Justamente a matéria que a bancada do PT repudia e determina a todos os seus membros que votem contra. A impressão que se tem é que deram certo as ameaças de Renan em armar um bolo-caso com os penduricalhos aos salários dos juízes e procuradores. A outra “arma secreta” seria o projeto criminalizando o abuso de autoridade.  

   

Agora, começam a surgir as primeiras delações premiadas dos executivos da Odebrecht. O ex-diretor Cláudio Melo Filho firma ter entregue R$ 10 milhões em dinheiro vivo para pessoas próximas a Michel Temer, como o ministro-chefe Eliseu Padilha, e ao assessor especial e amigo José Yunes. Na contabilidade da empreiteira eles aparecem com antonomásias tipo Boca Mole, Caju, Índio, Caranguejo, Botafogo. Geraldo Alckmin teria recebido pelo esquema operado pelo cunhado e a cunhada.

    

Na lista, codinome “O Santo”. O Trensalão premiava falcatruas no Metro e nos trens suburbanos de São Paulo. Também circulou pela rede a conversa animada do juiz Sérgio Moro com o senador Aécio Neves, na entrega do prêmio IstoÉ. O ex-governador mineiro teria recebido R$5,5 milhões dos fornecedores de Furnas. O Caixa 2 da Odebrecht alimentou também a campanha de José Serra à Presidência da República, em R$ 23 milhões. Lula, pela quarta vez se torna réu por tráfico de influência. O filho Luiz Cláudio, sem nunca ter trabalhado na vida recebeu R$2,5 milhões pela sua empresa de marketing esportivo. Dinheiro da Saab, construtora dos 36 jatos suecos comprados pelo governo Dilma.

    

O lado trágico é que a sociedade brasileira paga a conta. São 13 milhes de desempregados. Vem aí uma reforma previdenciária que atinge idosos e deficientes, mas livra os militares, “constitucionalmente um caso à parte”. O que a gente sabe da Constituição é que no preâmbulo, “todos são iguais perante lei”. Os políticos denunciados se declaram inocentes. Acrescentem à lista Rodrigo Maia, Moreira Franco, Romero Jucá. Eles se acham acima do bem e do mal.


Isentos de erro ou pecado. Detentores das “chaves do reino”, como o Pio IX que inventou a “infalibilidade papal”. Perguntado se eram “ordens de Deus” as centenas de presos, torturados e o nepotismo do seu governo, explicou que o papa que conversa com Deus nada tem a ver com o papa que comete arbítrios e se locupleta. Aqui, dinheiro de campanha nada tem a ver com corrupção. É só Caixa 2. O Brasil continua a deliciar humoristas. Pena que a flor mais rara dos Ponte Preta não esteja mais neste mundo.


O autor é jornalista e articulista do JC