09 de julho de 2026
Bairros

Núcleos de Saúde: falta investimento

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

“Falta médico.” Essa é uma das principais reclamações dos usuários das unidades básicas de saúde do Município. Insatisfeitos, os cidadãos não entendem o motivo pelo qual os postos de saúde não atendem totalmente às suas necessidades. O problema parece ter se tornado crônico em Bauru. A maioria dos técnicos e demais envolvidos com o setor definem o mal com uma palavra: investimentos.

Os usuários afirmam que a quantidade de consultas diárias feitas pelos médicos é insuficiente para atender à demanda dos bairros. Muita gente passa a madrugada na fila e nem todos conseguem uma “senha” - a suposta garantia de atendimento. Pessoas voltam para casa sem atendimento.

Outro alvo das reclamações são os casos de falta dos médicos que compõem o quadro de profissionais do núcleo - pediatras, ginecologistas e clínicos gerais.

“Precisa melhorar tudo. Precisamos de mais médicos. A maioria das pessoas chega e não consegue senha”, reclama Ana Lúcia Ferreira, moradora do Núcleo Bauru 1.

Ana Lúcia costuma chegar ao núcleo de saúde do Mary Dota de madrugada para tentar uma consulta. Muitas vezes, por não conseguir atendimento na unidade básica, ela recorre a um Pronto-Socorro Municipal.

“De cinco vezes que eu venho aqui, em quatro não tem médico”, expõe André Aparecido Guilherme, usuário do núcleo de saúde Mary Dota.

Sua esposa, Maria Cristina Vito, reclama das horas que passa com sua filha de 10 meses na fila. “O que é ruim é a espera”, diz.

Para a moradora Rosângela Tayano Vito, o crescimento do bairro gerou aumento na demanda de consultas no posto de saúde, enquanto a capacidade de atendimento da unidade permaneceu igual. â€œÉ muito pouco (atendimento) para muita gente. E, para agravar, os médicos atrasam horas”, salienta.

“Teria que ter mais médicos”, reforça Carolina Mansano, moradora do Núcleo Beija-Flor. “Se você não fica na fila, você não consegue. Se agendar, demora um mês ou mais”, acrescenta.

Para Conceição de Oliveira Isidoro, membro do Conselho Gestor do núcleo de saúde Geisel, há déficit não apenas de médicos, mas de outros profissionais nas unidades.

“A maior queixa das pessoas é ter que ir de madrugada para pegar um número. Eles não conseguem porque tem pouco médico. A gente precisaria de mais médicos e atendentes até no balcão”, acredita.

A enfermeira-chefe do núcleo de saúde do Mary Dota, Mara Margarete Ochiussi de Barros, explica que cada médico da unidade faz 16 consultas por dia. Metade delas é agendada para participantes de grupos especiais, como idosos e diabéticos. Os outros 50% das vagas são distribuídos aos pacientes da fila, no período da manhã.

Quanto à reclamação de médicos que faltam nos dias em que atenderiam na unidade, a enfermeira diz que o problema deve-se a cirurgias, partos (no caso dos ginecologistas) ou licença. “Às vezes acontece”, observa.

Mara acredita que a demanda de pessoas que vêm de outras regiões da cidade ou até mesmo de outros municípios compromete as vagas.

Procuram o núcleo de saúde do Geisel, por exemplo, pacientes de cidades como Avaí, Agudos, Piratininga e até algumas da região Nordeste. A informação é da assistente social e chefe da unidade, Soniamar Faria Queiroz Dias.

____________________

PS "congestiona"

A conseqüência da incapacidade de atendimento à população nos núcleos de saúde é refletida no grande movimento dos Pronto-Socorros Municipais (PSMs), em especial no Central. Pacientes que não conseguiram solucionar seus problemas nas unidades básicas localizadas nos bairros recorrem ao PS por motivos não caracterizados como de urgência e emergência.

De acordo com o diretor da Divisão de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Felinto dos Santos Neto, cerca de 80% dos casos atendidos nos PSMs poderiam ser solucionados nas unidades.

“O PS sempre absorveu grande quantidade de pacientes que acham que é mais cômodo ir ao PS porque eles já saem medicados e com a receita. O ideal é que a população fosse conscientizada do tratamento preventivo”, acredita Santos Neto.

Helena Simões Del Pupo, membro do Conselho Gestor do núcleo de saúde do Geisel, afirma que muitos usuários recorrem aos pronto-socorros, na busca de atendimento mais rápido. “Quando não conseguem médico nas unidades, muitas pessoas vão para o Pronto-Socorro”, diz.

Cláudia Magnani, moradora do Núcleo Beija-Flor, conta que vai ao PS sempre que não consegue atendimento no núcleo de saúde. “Quem vai lá eles mandam vir para cá e a gente não consegue atendimento em nenhum dos dois lugares. Não tem jeito”, reclama Cláudia, que freqüenta o núcleo de saúde do Mary Dota.