Está ficando cada vez mais raro na vida pública encontrar quem esteja disposto a fazer a coisa certa apenas porque é a coisa certa - mesmo quando a moral, os bons costumes e a lógica deixam claro que é a única coisa a ser feita. O que importa, acima de tudo, hoje em dia, é fazer a coisa que dá certo, nem é tão importante assim, na verdade, fazer o que dá certo, mais que tudo, o que vale é não fazer nada que possa dar errado. Trata-se da teoria e da prática do "risco zero".
Por exemplo: não se pode "dar a cara para bater", ou a maior virtude de um político é ser "profissional". Seu pior defeito é ser "ingênuo". Atos de coragem pessoal, por esta cartilha, são estritamente desaconselhados; quando expõem o autor à "impopularidade", então, passam a ser vistos como pura e irreparável estupidez.
É indispensável, diante de qualquer problema a ser resolvido, dizer que "o povo não pode pagar a conta". Nunca é o "momento adequado" para tomar uma providência, por mais necessária que seja, se ela significar algum sacrifício. É muito mais perigoso não prometer do que não cumprir. Um político eficaz deve acreditar, que dá mais certo tratar a população segundo os seus interesses do que segundo os direitos da população. A preocupação suprema de um político são as vaias, faça qualquer coisa, submeta-se a qualquer papel, mas não se arrisque, jamais, a ser vaiado em público. Imagina-se, por exemplo, se seria possível a presença do senador Renan Calheiros e do deputado Rodrigo Maia no palanque das autoridades em Chapecó? Temos, então, o seguinte: o presidente do Senado Federal e o do Câmara dos Deputados não andam livremente no próprio país. Pode?
E o ex-presidente Lula, que é descrito por tanta gente, a começar por ele mesmo, como o maior líder popular que o Brasil, jamais teve em toda a sua história? Esse, então, estava em Cuba junto com a sucessora. Foi a um outro enterro; não ocorreu a ele, e talvez menos ainda a ela, correr o risco de estar junto do povo brasileiro em Chapecó naquela hora. Lula, há anos, só aparece em eventos em que a plateia é controlada por seguranças do seu partido ou dos "movimentos sociais". De novo, o soberano das massas populares brasileiras não pode sair às ruas neste país. Ele e quantos mais? Quase todos. Na verdade, quantos políticos teriam coragem de ir a uma manifestação de rua como as que têm acontecido de 2015 para cá? Quantos se sentem realmente seguros para ir a um restaurante ou atravessar um saguão de aeroporto? Chegamos a um ponto em que a regra principal para o exercício da vida pública no Brasil é não aparecer em público.