10 de julho de 2026
Articulistas

O meu menino Jesus

Lucas Dias
| Tempo de leitura: 2 min

Numa dessas tardes quentes de julho, tive um sonho: eu vi Cristo se fazer presente novamente entre os homens. Vi Jesus descendo do paraíso e acolhendo toda a humanidade, sem fazer acepção de pessoas, sem emanar preconceitos. Vi o filho de Deus em plena glória aqui. Não o homem cansado das surras que levou e dos pregos cravados nas mãos.  Eu vi Jesus Cristo na forma de um comum e indefeso menino. Ele havia fugido do céu. Lá era tudo muito falso.


As pessoas que ali estavam, estavam lá apenas por consequência dos seus medos. Lá, no céu, existia pouco amor voluntário. Em vida, seus anjos, santos e mártires, somente seguiram regras temendo o pior e não se prepararam para a liberdade exacerbada, digna de um verdadeiro paraíso. Tudo lá era silencioso. Todos vestiam branco... ninguém ao menos se olhava. E Ele, definitivamente, não era daquele lugar. Ele sempre foi nosso. Aceitou calado as dores e a rejeição dos homens e, mesmo assim, foi aqui, com os homens e para a humanidade, que Ele escolheu viver.


Hoje, o menino Jesus vive em minha casa. É uma criança bagunceira, têm os cabelos enrolados e o sorriso agradável. Faz birra quando contrariado e ri de coisas que, sem ele, eu jamais veria a mínima graça. O menino Deus sobe em cima dos móveis, quebra os brinquedos que lhe dou e com os dentes à mostra, solta longos risos, com a segurança de que está na companhia dos seus melhores amigos e que todos em sua volta pouco se importarão com os possíveis prejuízos financeiros. Não. O mais valioso é justamente este sorriso... Puro, livre e gratuito. Ele ensinou-me tudo novamente. Mostrou-me a verdadeira beleza das coisas, até as mais banais, e me fez, aos poucos, resgatar o mesmo menino que deixei preso no passado... sepultado na áspera frieza dos calos que acumulei no meu coração.


É por isso, e por outros infinitos motivos, que afirmo, com plena certeza, que este menino é o verdadeiro menino Jesus. Pois, o que as páginas amareladas de um livro não conseguiram me ensinar durante toda a vida, este menino conseguiu - sem ao menos falar – em pouco mais de três anos. Despedaçou minha racionalidade numa noite febril... deu-me do mais sincero amor, sem me cobrar absolutamente nada. Ensinou-me que os meus problemas são pequenos e que, mesmo lutando, posso agora me sentir vitorioso.


Peço-lhe, meu menino Jesus, que no momento exato da minha morte, seus braços sejam mais fortes que os meus. Leva-me, filhinho, para sua verdadeira morada e me ensine, com a pureza da criança, toda a beleza da vida que eu não pude lhe mostrar, até que eu viva novamente e me encontre contigo no paraíso que as crianças merecem habitar.

O autor é professor e colaborador de Opinião