09 de julho de 2026
Articulistas

Trânsito, expressão da sociedade

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

Ao longo de minha carreira como docente, pesquisador e engenheiro de trânsito, tenho procurado, através das pesquisas realizadas no Núcleo de Estudos sobre Trânsito, Transportes e Logística da Universidade Federal de São Carlos, entender o fenômeno “comportamento no trânsito”. De maneira particular, compreender o que ocorre com os condutores brasileiros, nas ruas e rodovias. Não tem sido uma tarefa fácil! Reconheço.


Creio que as palavras de Tom Vanderbilt, um jornalista americano e autor do best seller Traffic: Why We Drive the Way We Do, em tradução livre, Trânsito: por que dirigimos do modo que dirigimos, são as que melhor representam o fenômeno.


Vanderbilt afirma que “o trânsito talvez seja a manifestação mais verdadeira da sociedade, pois as ruas e as rodovias, diferentemente de outros lugares, em geral, agregam pessoas de todas as classes, idades, raças, religiões etc.” O autor complementa que o trânsito é “um laboratório para entender como as pessoas se tratam entre si. Exemplificando, um experimento psicológico clássico é colocar um veículo parado diante de um sinal de trânsito vermelho e, então, não mover o carro à frente quando o sinal indicar o verde. Quando a pessoa que está no carro atrás buzina, verifica-se então por quanto tempo ela buzina, para quem buzina etc.


Isso costuma indicar certos padrões previsíveis: homens buzinam mais que mulheres, pessoas em carros de alto padrão buzinam mais do que pessoas em carros mais modestos. Elas estão repletas de momentos de poder implícito, cheias de mostras ofensivas de egoísmo, de todo tipo de outros fenômenos psicológicos de muito interesse”.


Pessoas as mais pacatas, quando na função de condutores de motos ou motoristas de automóveis, se transformam em ‘animais vorazes’. Para Vanderbilt, “o automóvel representa um curioso paradoxo: pode ser considerado como um espaço privado imerso em um espaço público, o que potencializa a ansiedade das pessoas”.


O uso de vidros escurecidos, amplamente usados nos dias atuais, colocam os motoristas na condição de maior anonimato. Nestas condições, afirma Vanderbilt, as pessoas estão menos dispostas a colaborar quando não veem ninguém e nem são vistas. Em casos extremos, agem mais violentamente contra aqueles que elas não podem ver. Esse fenômeno social é chamado de “desindividuação” e de fato pode ser amplificado por eventos como “sobrecargas sensoriais” ou pressão do tempo - condições que se aplicam à perfeição no trânsito.


Enfim, em uma sociedade profundamente enraizada na corrupção, no individualismo, na relativização, na falta de ética, de valores, de amor ao próximo não poderia proporcionar um trânsito mais “sadio”. Igino Giordani, uma humanista e político italiano, declara que “a sociedade está cheia de contradições e ambiguidades”.


Chiara Lubich, humanista italiana, aponta um caminho para reverter esse quadro quando afirma que é preciso “promover a vida segundo os preceitos cristãos e contribuir para uma nova ordem mundial, segundo os ideais da fraternidade e bens em comum”.


O autor é especialista em trânsito e transportes, docente da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag.