08 de julho de 2026
Geral

'Ter lazer é ser livre'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Reprodução Internet
Este momento precisa, necessariamente, estar vinculado às demandas subjetivas do indivíduo para que ele possa ter liberdade

O alto nível de exigência imposto pela lógica da sociedade contemporânea, que engloba compromissos profissionais e a rotina de tarefas domésticas, incluindo a administração de orçamento e conflitos familiares, tira um tempo precioso da maioria das pessoas: o do lazer e do ócio.

Para a professora e pesquisadora Luciene Ferreira da Silva, do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, este momento precisa, necessariamente, estar vinculado às demandas subjetivas do indivíduo para que ele possa ter liberdade, um sentimento cada vez mais aplacado pela pressão a que a sociedade atual se submete. "Hoje, existe uma visão de senso comum de que é bom ter lazer para se tornar mais saudável, mais produtivo, ou seja, para alcançar algo que está fora do lazer. O lazer pelo prazer puro e simples se tornou pouco importante", critica.

Ela diz que o aspecto lúdico é próprio dos seres humanos, que viviam, no passado, de acordo com o ritmo da natureza. Mas, ao longo da história, desde que passaram a integrar ciclos de produção, se viram diante da cobrança por uma eficiência intimamente vinculada às regras capitalistas.

Por consequência, começaram a vilipendiar esta necessidade intrínseca. "O tempo está muito controlado para a produção e, portanto, as pessoas estão, cada vez mais, se artificializando. O tempo disponível fora do trabalho é usado para outras tarefas, que nada têm a ver com este lazer pelo lazer. O tempo sem fazer nada é, muitas vezes, odiado e fonte de angústia", pontua.

RISCO

E preencher quase todo o tempo apenas com obrigações (e dormir também está incluído no grupo de obrigações), pode desencadear uma série de doenças, alerta a professora. "Entre elas, estão a Síndrome de Burnout (distúrbio gerado por esgotamento físico e mental), o estresse e a depressão", comenta.

Para tentar mudar esta condição, Luciene recomenda que as pessoas comecem a buscar atividades que sejam fontes exclusivas de prazer. Entre elas, estão hobbies vinculados às artes, como aprender a tocar um instrumento e começar a pintar e dançar.

"Há, ainda, hobbies físico-esportivos, intelectuais, manuais, sociais e turísticos. A prática de esportes, por exemplo, não pode ter uma finalidade apenas objetiva, como melhorar os resultados do exame de sangue. Precisa haver um direcionamento íntimo para o lazer e não com foco no trabalho ou para satisfazer a sociedade. Com isso, é possível ter uma sociedade muito mais desenvolvida no plano individual", detalha.

Desde a infância

Pesquisadora sobre lazer e educação e a educação para o lazer, Luciene da Silva também recomenda que pais estejam atentos para não sobrecarregar os filhos com uma série de atividades escolares. Em muitos casos, no contraturno das aulas, a necessidade deste "respiro" em meio a uma rotina de obrigações não é respeitada. "Existe uma preocupação, inclusive dentro das escolas, de que a criança seja um adulto produtivo, quando na verdade, a preocupação deveria ser em permitir que elas vivessem como crianças, de maneira mais leve", pondera, salientando que este desequilíbrio se verifica, principalmente, nas famílias de classes média e alta. "São crianças que podem estar sobrecarregadas com uma série de responsabilidades ou, ainda, alienadas por tecnologias como o videogame. E alienação, neste contexto, é algo que não gera desenvolvimento para que elas se tornem livres. Pelo contrário, é algo que as aprisiona por horas e horas, sem que elas percebam", completa.