08 de julho de 2026
Articulistas

O Natal e as crianças de Aleppo

Carlos Pinto
| Tempo de leitura: 2 min

Há uma total incoerência nas festividades natalinas. De há muito deixou de ser uma festa para reverenciar Jesus e passou a ser uma festança comercial com troca de presentes, jantares abundantes, onde a figura de Cristo por vezes nem é lembrada. São os tempos modernos, mas que mantêm os mesmos costumes de guerras de conquistas, onde só o poder interessa, cuja finalidade principal é escravizar a população.

E estas guerras de conquistas não passam de realização de testes de novas armas por parte dos países que as fabricam, onde o interesse comercial sobrepuja a paz mundial. Isto é o que estamos vendo na Síria, onde americanos, russos, turcos, curdos e iranianos destroem um país milenar, para manter no poder um títere cuja sede de sangue é incomensurável.

Allepo, a principal cidade síria depois da capital, que tinha mais de dois milhões de habitantes, está transformada em um monte de ruínas. E por que tanta destruição? Simplesmente por ter se transformado em local de concentração dos rebeldes que lutam contra a tirania do ditador.

Milhares de crianças mortas sem piedade, e outras tantas que perderam seus pais e vagam pelas ruas destruídas, sem ter um alento ou uma direção.

Quanto mais um Natal. Mas Allepo não é muito diferente das nossas crianças sertanejas, que residem em áreas de secas, que junto com suas famílias estão abandonadas à própria sorte. Essas nem merecem participar dos telejornais de notícias, em uma mídia cada dia mais entregue aos milhões da propaganda governamental. Mas mesmo assim eu como e bebo. Não me revolto contra essa corja que domina o país, roubando trilhões dos cofres públicos, cada dia mais seguros de suas impunidades.

Esta nossa civilização perdeu os parâmetros da justiça, da fraternidade, da igualdade e da decência. Criticam o nazismo de Hitler, mas cada um deles é um novo Àtila, o flagelo de Deus.

As chamadas guerras santas não passam de um pano de fundo através do qual os fabricantes de armas usufruem seus lucros e suas vidas faustas. Os extremistas do Estado Islâmico têm como lema cobrar dos cristãos os estragos feitos durante as batalhas e as invasões de milênios atrás. Pura fantasia. O que está em jogo é a conquista do poder, para escravizar.

Enquanto isso, as crianças órfãs de Allepo e as crianças sertanejas se somam em uma infância perdida, cujos sonhos e brinquedos lhes foram roubados pelas bombas e pela corrupção dos governantes. Até quando? Talvez até o momento em que essa maré de transtornos e desolações, chegar em nossos lares, mas aí talvez já seja tarde para reagir.

Enquanto isso, vamos continuar comendo e bebendo, mesmo que isso faça falta em muitos lares, seja de Allepo, seja de nossas cidades sertanejas.