A caixa da padaria que passa por um doce momento não é somente cifras, é sorriso e conversa que não é fiada, simpática, torna-se enfática: "Parece que está mudando o tempo!" Sim, moça do caixa que não pede para ninguém vir para caixa você também, mas que quando vem, não se tem vontade de "vai ir", o tempo está de mudanças e não são daquelas de se deixar algo, a casa, a trepadeira, o chuchu na cerca, o pé de manga, o limão galego, o abacateiro de Gilberto Gil, são mudanças que Luís Vaz de Camões previu há séculos: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!"
Mas, afinal, o tempo está passando depressa mesmo? Você também tem aquele problema de na hora de relembrar algo não saber se é 2013, 2014, 2015? Estou a sofrer disso, sem gerúndio, somente com infinitivo, seria o que Machado previu: "Vieram-me as rugas"? Uma aluna me disse que a avó dela diz que no tempo dela era tudo melhor e por isso ela acha que a vida não tem graça!
Disse-lhe que também gosto de contar estórias e histórias aos meus filhos, alunos, jovens amigos jovens, sei que não sou compreendido, ver filmes até as três horas da manhã era um absurdo e hoje começa-se a balada nesse horário, eu, ainda, nem tão decrépito ser, digo-lhes que quando se acorda ao meio-dia, já foi meio dia. Incrível, não?
No entanto, haverá uma medida para o tempo? Os jovens não usam mais relógios, eles têm celular, eles não assistem à TV, eles têm celular, eles, às vezes, conversam com os mais velhos, eles têm celular!
O dia em que me vi sozinho, o único com relógio na sala de aula, achei-me "Estranho no Ninho" e não "Melhor é impossível!". Como se adaptar? Ou como integrar-se? As festas de "Flash-Back" fazem-nos parecer jovens, vemos pessoas que ainda ressoam, são seres que sobreviveram, querem mais festas que velórios, ainda bem!
São barrigas que têm histórias, perpassam o inimaginável, quantas piadas, lágrimas, comemorações, desolações, são seios que caíram de tanto amamentarem a fome de quem, mais cedo ou mais tarde, some, são cabelos que foram ao ventos como folhas a caírem das árvores genealógicas, cabelos que passaram por cafunés ao som de Sinatra ou Wando!
Segundo a vizinha, adepta da nostalgia, palavra triste que lembra Novalgina, ou seja, dor, dor em algum lugar, na cabeça? Mas a vizinha insiste que o mundo mudou, não se tem mais arroz de forno, não se chupa mais a lata do Leite Moça, não há bolinhos de chuva, às vezes, nem chuva! O tempo está na escola, nas músicas, no respeito, nos abraços, na vontade de ser e estar, o tempo é o senhor da razão ou penhor da emoção?
O tempo existe, mesmo? O tempo é de colher o quê? Há passatempos que se tornaram contratempos?
Por que se havia tempo? Por que dançávamos música lenta e o tempo esperava, por que pulávamos corda e o tempo contava, por que achávamos que se media o tempo, por que o relógio achou que ele era o tempo? Por que segundos fecundos sumiam? Por que minutos eram diminutos?
Por que horas eram senhores e sem horas? Por que dias eram manias ou tricôs ou doces ou fofocas de tias? O tempo ligou-me a cobrar, ele disse que não volta para casa, ele foi-se, sim, um instrumento cortante protegido pelo cacófato, adeus, tempo, a Deus tempo!
Nem foi tempo perdido, Renato Russo ou será Rousseau? O tempo está perdido, por conseguinte, onde o encontramos? Envelhecendo, velho sendo? Cícero, 44 A. C. vociferou: "Só os idiotas lamentam envelhecer!". Amanhã, quero acordar e ver se ainda dá tempo!