08 de julho de 2026
Esportes

5 décadas de corrida

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Alberto Ramos é hoje um dos atletas mais conhecidos nas corridas de rua de Bauru

Aos 64 anos de idade, Alberto Ramos é hoje um dos atletas mais conhecidos nas corridas de rua de Bauru e região. O gosto pelo atletismo veio desde a adolescência, quando ainda morava na zona rural, em Val de Palmas, e seguiu durante toda a vida. São milhares de provas disputadas pelo Brasil inteiro, e nada menos do que 1.400 troféus e medalhas conquistados nestas cinco décadas de dedicação ao esporte.

Alberto Ramos participou de praticamente todas as corridas pedestres realizadas nos últimos anos em Bauru - o número de provas na cidade, inclusive, cresceu muito recentemente - e ele já se prepara para sua corrida preferida, a São Silvestre, que ocorre no próximo sábado, dia 31, encerrando o calendário esportivo brasileiro, percorrendo as ruas da cidade de São Paulo. O JC conversou com o atleta, que falou sobre as corridas e também de sua vida:

Jornal da Cidade - Você é de Bauru mesmo?

Alberto Ramos - Sim, eu nasci aqui, fui criado em Val de Palmas, na fazenda que tinha lá. Minha mãe me internou com um ano e nove meses na creche da Casa da Criança, e depois aos sete anos eu fui lá para a fazenda. A gente só via a mãe uma vez por mês, era uma época difícil, ela teve cinco filhos, os irmãos acabaram separando, eu só tenho contato com uma hoje, e sou solteiro, praticamente posso dizer que casei com o atletismo né, se eu tivesse me casado e a mulher falasse pra escolher entre ela e o atletismo, ia responder que prefiro a corrida. Eu comecei a correr com 12 anos de idade, por causa de um cara chamado Cridão. O pessoal da minha idade jogava bola, eles chamavam, mas eu preferia correr, por causa do Cridão. O pessoal vinha da fazenda para a cidade de ônibus, mas eu ia correndo, isso quando eu já tinha 16 para 17 anos. Eu consegui estudar até a quinta série.

JC - E desde então o senhor nunca parou de correr?

Alberto - Nunca parei. Eu fui trabalhar na Ki Refresco e todo mundo ia de ônibus, mas eu ia correndo. Já levava uma troca de roupa, tomava banho. Trabalhei no Horto Florestal também, inclusive sou aposentado do Estado, e lá eu também treinava, dava volta em torno do Horto. Teve uma época que me transferiram para Pouso Alegre, ali perto de Jaú, e aí eu não conseguia treinar, entrei em depressão, fui para 101 quilos, foi uma época em que perdi minha irmã ainda. Aí eu consegui ir para Pederneiras, foi mais tranquilo, porque fiquei mais perto de Bauru. E depois eu voltei a treinar e competir, porque sempre gostei disso, e aí emagreci de novo, sempre fui magro.

JC - E as corridas, quando começou?

Alberto - Minha primeira São Silvestre foi com 18 anos de idade. Desde então acho que só não competi na São Silvestre umas três ou quatro vezes. Quando eu completei 18 anos e comecei a treinar firme, fui treinar com o Cabo Alcides, lá no Noroeste. Passei a levar a sério as corridas. Depois de uns anos fui para o Rio de Janeiro, com a cara e a coragem, para tentar correr no Flamengo, isso nos anos 80. Consegui por um tempo um lugar para morar e um emprego de porteiro em um prédio na Praia do Flamengo. Depois eu tentei sair do atletismo e ir trabalhar no futebol do Flamengo, como roupeiro, mas não deu certo, e aí eu saí de lá. Fui embora do Rio de Janeiro. Fiquei dois anos lá.

JC - E depois, o que o você fez?

Alberto - Fui para Blumenau. Levei tudo na bagagem, mais de 400 troféus que eu já tinha nessa época. Mas no ônibus, no caminho para lá, comecei a pensar o que eu tinha feito, largado o Rio de Janeiro onde eu tinha emprego, já estava arrependido, não sabia nem onde ia ficar lá. Cheguei em Blumenau, corri a maratona, e depois falei com o organizador, que era o Paulo César. Ele me ajudou, consegui arrumar um emprego por lá, ele deixou eu ficar um tempo na casa dele. Mas não me adaptei, porque faz frio no Sul, e eu gosto do calor. Aí voltei pra Bauru.

JC - Voltando para Bauru, você continuou competindo?

Alberto - Sim. Eu cheguei a vender bicicleta para correr São Silvestre. Quando eu estou com pouco dinheiro, eu fico lá no ginásio do Ibirapuera, que tem o pernoite a 44 reais na véspera da São Silvestre. Quando o dinheiro tá um pouco melhor, aí dá pra pegar um hotel. Sempre tem alguns empresários que me ajudam, como a Bauru Painéis, Guinchos RS, Célio Autocapas, Drogaria Droga A, Bar do Cláudio, Disbauto, Expresso de Prata, o escritório contábil do Clementino Alves Júnior, e a Sorveteria Branca de Neve, inclusive eu faço uns bicos lá, vendendo sorvete na rua. Tudo isso me ajuda para pagar inscrição, fazer as viagens.

JC - E com tantos anos de corrida, você tornou-se muito conhecido em Bauru.

Alberto - É verdade. Às vezes eu estou com insônia e saio pra treinar à noite, a polícia me vê e eles já falam "e aí seu Alberto, treinando para a São Silvestre?", então todo mundo já sabe quem eu sou. E eu respondo que estou firme e forte. Eu gosto de treinar em estrada de terra, que vai de Bauru para Piratininga, Agudos ou Arealva, por exemplo. Passa pouco carro, o ar é mais limpo.

JC - E a São Silvestre, que é sua prova preferida, deve ter boas histórias, certo?

Alberto - Eu gosto de correr principalmente meia-maratona, maratona. A São Silvestre também eu gosto muito. Em 1994, eu fui o terceiro colocado na minha faixa etária. E eu já tinha voltado para Bauru porque trabalhava no Horto e nisso não peguei o troféu. E depois passou o prazo, não consegui pegar nunca esse troféu. Nesse ano quero tentar fazer a prova em uma hora cravado. Eu não saio na elite, saio no povão. Ali você tem que chegar cedo, não dá nem para ir ao banheiro (risos), para segurar um lugar bom, isso por mais de uma hora, não dá para aquecer direito. Porque se sair muito lá no final perde tempo demais no começo. Já corri em todos os horários (noite, tarde e manhã), e prefiro o de agora, que é logo pela manhã.

JC - Para finalizar, Bauru tem recebido muitas provas de 5km e 10km, e até meia-maratona. Como você vê esse aumento de corridas na cidade?

Alberto - Eu achei bom. Porque assim eu consigo correr por aqui mesmo, acaba sendo um treino já para a São Silvestre, e como é em Bauru não preciso pagar lugar pra ficar. Está tendo bastante corrida aqui, está bom.