09 de julho de 2026
Articulistas

República das bananas!

Henrique Luiz Monteiro
| Tempo de leitura: 4 min

O Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) publicou em 2016 dados sobre a evolução do emprego público no período 2004-2014, os quais apontam que, ao final do período, o Brasil dispunha 6,8 milhões de servidores municipais e 3,9 milhões de servidores estaduais, totalizando 10,7 milhões de trabalhadores. Rocha e Macário, em 2015, publicaram um ensaio acadêmico em que indicavam uma população economicamente ativa ocupada, em 2011, de 93,4 milhões (números mais recentes de que dispomos). Isso significa que apenas nos Estados e Municípios da federação o funcionalismo público corresponde a 11,5% de toda a população economicamente ativa do Brasil, distribuídos, em sua maioria, nas atividades de educação, saúde e segurança pública.


Cena 1: Dona Maria é merendeira de uma escola pública de um município brasileiro. É uma servidora pública. Toda semana ela vai à feira e compra uma dúzia de bananas do sr. João, que é feirante e atua na informalidade. O salário de dona Maria está congelado por cinco anos, conforme proposto pelo governo. Ao final de um ano ela (porque tem emprego) continua comprando bananas do sr. João, mas agora seu poder de compra só permite levar oito bananas para casa e não doze, como fazia há um ano atrás. O comportamento de dona Maria se multiplica entre os clientes do sr. João e isto significa que ele agora vende 2/3 do que vendia a um ano atrás.


Cena 2: O sr. João, que há um ano atrás adquiria do sr. José (produtor) três caixas de banana para cada dia de feira livre, agora encomenda apenas duas e esta tendência se repete com outros comerciantes. O sr. José, que empregava nove funcionários para manter sua cultura e distribuição, foi obrigado a demitir três auxiliares, agora emprega apenas seis e, portanto, já são mais três a consumir menos.


Cena 3: O sr. José (produtor) é uma daquelas raras exceções entre os empreendedores, por pagar regularmente os impostos e tampouco sonegar do governo. Ele sempre diz que não sabe como funciona o sistema e só os grandes e médios empresários sabem como fazer isso sem sofrerem consequências. No entanto, agora ele está recolhendo menos tributos.


Cena 4: O governo detecta que houve queda na arrecadação de impostos e aumento do desemprego. Imediatamente trata de dizer para a opinião pública que a culpa não é dele, e sim do governo anterior, do qual ele mesmo fazia parte. Então, como o governo é muito criativo na gestão de crise, e por isso sempre faz a mesma coisa, decide que vai congelar salários dos servidores públicos (porque são sempre os culpados).

Mas para não ter problemas com a justiça, antes cuida de dar aumentos generosos para o Poder Judiciário e Polícia Federal (os que menos precisam, porque são aqueles que menos sofrem com a crise, devido aos generosos salários que recebem). Então, como aumentou a massa de desempregados e com 11,5% dos servidores estaduais e municipais recebendo menos, detecta que a Previdência Social não vai fechar a conta, e, num incrível lapso de extrema criatividade, toma uma decisão crucial e urgente: vamos reformar a Previdência – os que ainda têm emprego pagam mais para suprir os que não estão pagando (nada mais justo), e por ainda terem empregos precisamos puni-los fazendo-os contribuír por mais tempo ainda.


Cena 5: Dona Maria, que faz merenda para as crianças, como castigo por ser servidora pública e ainda ter emprego, vai pagar mais Previdência Social, por mais tempo, e como recompensa receber ainda menos aposentadoria. Então, vendo que seu horizonte é negro, decide que precisa conter despesas e decide que com um pouco de boa vontade consegue passar a sua semana com apenas meia dúzia de bananas, uma para cada dia, afinal, o que custa fazer um dia jejum quando Deus é tão generoso, porque ela ainda tem emprego.


Cena 6: O restante vocês já sabe. Dona Maria compra menos bananas (1/2 dúzia) do sr. João. Sr. João diminui o pedido do fornecedor, sr. José, que por vender menos ainda vai demitir mais trabalhadores e o governo, que é sempre muito criativo, competente e generoso (porque faz sempre a mesma coisa) tratará de achar um meio de dar mais a quem menos precisa e, de novo, punir a dona Maria por ser servidora pública e sempre culpada das crises e o sr. João e o sr. José porque decidiram ser empreendedores (que ousadia). E tudo continuará a ser como sempre foi na Republica das Bananas. Brasil!


O autor é professor (Unesp – Bauru) hlmonteiro63@hotmail.com