08 de julho de 2026
Articulistas

Uma combinação maléfica

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil foi vítima de uma combinação maléfica. Os elementos para a combinação sempre existiram, não só aqui como em outras partes do mundo e em todos os tempos. São eles: a irresponsabilidade, a desonestidade e a ambição, que no contexto em que vamos comentar são: irresponsabilidade fiscal, corrupção e política desavergonhada. Mas como ocorre no mundo da química, aqui também são necessárias condições favoráveis para que haja a combinação. E foi exatamente esse o papel de catalisador do governo lulopetista. De municípios a estados, salvo pequenas atenuantes, todos seguiram o exemplo do governo federal: estouraram os orçamentos, tiveram uma corrupção como ‘nunca se viu neste país’ e deixaram uma enorme população desempregada ou trabalhando sem receber.


A extensão dessa calamidade apenas começou a ser revelada. Com a posse dos novos prefeitos é que ela irá mostrar as suas verdadeiras dimensões, porque é nos municípios que se concentram todos os problemas. Os movimentos que vimos no Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte, são apenas dos funcionários do estado, mas nos municípios os problemas são de toda a população. Entrando com vontade de mostrar que são capazes de fazer o que prometeram, e prometeram muito, ao se defrontar com a realidade de seus municípios, os prefeitos vão revelar, primeiro, a ‘herança maldita’ que receberam e depois vão recorrer aos governos estaduais e ao federal para pedir ajuda.


Como os governos estaduais já estão de joelhos frente ao federal, porque não conseguem resolver os seus problemas sem ele, pouca coisa vão conseguir. O federal, por sua vez, vem lutando contra uma oposição empedernida e uma coalizão mais preocupada em se safar da Lava Jato do que contribuir para salvar o Brasil.


O prosseguimento das medidas econômicas do governo anterior animou o governo petista a implantar a sua política distributivista. Melhorando a vida da classe social mais baixa melhorou a sua popularidade, que excitou o desejo de permanência indefinida no poder. Começou aí a junção dos elementos da combinação, propiciado pelo aparelhamento do Estado, que criou ramificações nas empresas estatais, nos partidos políticos e nas empresas que tinham negócios com o governo. Ficou criado o ambiente propício para a corrupção. Com o exemplo vindo de cima houve uma verdadeira metástase desse comportamento nefando. E ninguém segurou mais, até que, por ironia, a lavagem do dinheiro sujo foi feita num Lava Jato. Daí surgiu o suporte para o povo que foi às ruas e para a imprensa pressionarem o Congresso a afastar a presidente, dando oportunidade para este difícil e tumultuado recomeço.


Está certo o atual governo em não abrir mão da contrapartida dos estados e municípios na renegociação da dívida pública. Dar sem exigir nenhum esforço compensatório vem transformando o país numa enorme instituição filantrópica, acostumando os cidadãos a serem dependentes da ajuda pública. Mas não são somente os cidadãos, as empresas também. Pesquisa do IPEA sobre inovação no setor industrial, publicada na Folha do dia 02/01, mostrou que o percentual das empresas que receberam apoio do governo para inovação subiu 27%, de 2.000 para 2014, mas o percentual de inovações subiu apenas 4,9%. Os incentivos do governo serviram mais para acomodar a situação das empresas do que para torná-las mais competitivas, justamente o que mais se exige em situação de crise.  


Aos poucos o atual governo vai avançando. O perigo de uma nova eleição, que tumultuaria, ainda mais, já está afastado. A eleição indireta ainda é uma ameaça, o que prorrogaria o período de turbulência e poderia dar oportunidade a aventuras indesejáveis. O escritor e cronista da Folha, Ruy Castro, na edição de 05/01 escreveu: “Nossos governantes mentem, roubam e apagam as pistas, e nós é que nos habituamos a isso. É verdade que, de tempos em tempos, o país acorda para o esculacho e se deixa seduzir por um moralista, que promete varrer a sujeira, caçar os marajás ou acabar com os 300 picaretas do Congresso. Daí Jânio Quadros (1960), Fernando Collor (1989) e Lula (2002). Eleitos esses elementos, o que acontece?


A vassoura toma um porre, o caçador de marajás revela-se o marajá-açu e o outro resolve governar justamente com os 300 picaretas, ampliados para 400”. Deixem o Temer continuar tentando colocar o país nos trilhos e preparem uma mudança mais segura para 2018.


O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.