Novo Pronto-Socorro: discussão aberta
Médicos ouvidos pelo JC apontam que urgência deveria permanecer junto ao Base durante as obras, o que pediria adequações na proposta inicial
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| Imagem aérea identifica todos os terrenos e construções do Estado, inclusive o atual PS, como possíveis de negociação para a construção do novo projeto |
O ousado projeto para a saúde defendido pelo prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD) para o atendimento referenciado de urgência em Bauru merece o acolhimento de sugestões em razão do risco a casos graves, durante a fase de construção do Centro de Referência de Urgência. Para tanto, profissionais da própria rede sugerem que a proposta contemple alternativas que não incluam a demolição do atual prédio do PS Central. Uma terceira sugestão considera a possibilidade de demolição, mas com a transferência do atual atendimento de casos graves de forma transitória para o local onde hoje está o Pronto Atendimento Infantil (PAI). Planos B e C sugeridos por médicos levam em conta risco, eficácia e tempo. Para os profissionais, a demolição do prédio do PS é temerária.
“Para os atendimentos de politrauma e por fatores externos - perfuração de órgãos por arma branca ou de fogo, por exemplo - é crucial para a preservação da vida o tempo de atendimento. Para isso, a eficiência do serviço de urgência pede que a fase de estabilização e a transferência para centro cirúrgico estejam acopladas com um hospital. E a porta de entrada hoje põe, literalmente, este paciente grave dentro do PS para procedimentos de estabilização. A etapa seguinte é fundamental, onde, estabilizado, o paciente vai para o Centro Cirúrgico do [Hospital de] Base rapidamente. A demolição do prédio pressupõe eliminar isso por algum tempo, até a obra ser concluída. E isso é muito arriscado”, avaliou um dos profissionais, que pediu para ter a identidade preservada.
Entre os médicos com experiência em serviços de urgência ouvidos, a sugestão inicial por não demolir o prédio do PS foi unânime. “Considerando que a UPA Bela Vista seja adequada para receber este paciente grave, o risco maior será tirar ele de lá para levar, por ambulância (UTI) até o hospital. Neste momento, a proposta traz componentes de risco que devem ser levados em conta. O tempo nessa etapa é crucial por se tratar de casos críticos e o deslocamento impõe condições específicas, com equipe especializada junto”, acrescenta.
OPÇÕES
Dois, entre os quatro especialistas ouvidos, sugerem plano B, sem demolição do prédio do PS Central. “As áreas nesse complexo, que envolvem AME, PS Central, Adolfo Lutz e Hospital de Base, são todas do Estado (confira no quadro acima). Entre negociar concessão para construir no lugar do atual PS, seria salutar negociar cessão de área contígua ao Base (próxima do terreno que compõe a antiga fábrica de remédios da Santisa), adequando o deslocando para o Centro Cirúrgico do Base. Além de não demolir o PS, o que evitaria o risco nessa fase crítica de adaptar durante a nova construção, o atual prédio poderia ser utilizado para outra função depois, como o novo Núcleo de Saúde do Centro”, apresentam.
Outros dois médicos contribuem com uma terceira via, caso a cessão de terreno próximo não se viabilize. O plano C foi pensado para a hipótese de manter a demolição do atual PS. “Se for para adaptar, penso que seria melhor levar o serviço do PS atual para onde está o PAI, com o deslocamento provisório das consultas de adultos e da pediatria para UPAs. Com isso, as ações de estabilização do paciente grave e sua ida para o centro cirúrgico continuariam próximas, continuando quase acopladas. Já levar pediatria para a UPA do Geisel faz sentido, porque hoje crianças já vão para Botucatu e o Geisel está perto do Hospital Estadual, que atende esse segmento”, complementam.
Informação adicional necessária na avaliação das sugestões é que, além de ambas contemplarem manter o serviço transitório - durante as obras do novo Centro - próximo do Hospital do Hospital de Base, estas levam em conta conhecido projeto do Departamento Regional de Saúde (DRS-6) de deixar sua base atuar. Recursos externos (junto ao BID) já teriam sido viabilizados. Portanto, a princípio, haveria chance de negociar com o governo do Estado ocupar parte das atuais instalações próximas do atual PS Central.
Outras ponderações são levar em conta que “o problema essencial é ter vaga para internar” - cuja gestão está nas mãos do Estado -, avaliar a repactuação dessa regulação com o DRS-6 e checar a consequência de custeio com a construção de 55 leitos, gerando “hospital municipal”, mesmo que com serviço de pré-internação (sala de espera).
Todas as possibilidades foram apresentadas sob as condições de anonimato, por razões óbvias, e de abordagem propositiva ao projeto do novo governo. A Famesp, fundação que responde pelos serviços hospitalares em Bauru, informou que aguarda ser acionada para conhecer e se posicionar sobre o projeto.
Um dia no PS Central
| Neide Carlos/JC Imagens |
| Poucos médicos nas escalas, fila e demora na triagem de pacientes, dor e descontentamento integram a rotina do PS |
Pronto-Socorro Central é sinônimo de tensão e angústia. Poucos médicos nas escalas de plantão, fila e demora na triagem de pacientes, dor e descontentamento integram a rotina.
O PS, junto com o PAI, atende 443 pessoas/dia (média dos últimos 12 meses). A UPA Mary Dota atende 200; a do Geisel, 180; a da Bela Vista, perto de 400 e a do Ipiranga atende mais 220.
Quarta-feira última, 16h50, a instrumentadora de serviços de Saúde Fátima Aparecida Nascimento - assim que percebeu a presença da reportagem - reclamou que aguardara atendimento desde as 10h. Pergunto à moradora da rua Floriano Peixoto, Altos, o que está sentindo: “Tenho febre e calafrios. Preciso saber o que tenho. Só tem um médico”.
Argumento a Fátima se, por ser da área, admite a possibilidade de que seu caso pode não se enquadrar em urgência. Ela afirma que conhece o protocolo de cores que define prioridade no atendimento (vermelho, amarelo, verde, etc.). “É grave sim e aqui é o mais perto de casa”, reage e volta para seu assento na espera.
José Antonio aguarda vaga para cirurgia. A sala é abafada, sem ventilador. Três estão na mesma situação que ele. Um vai “operar o coração, outro de apendicite e outro a coluna”. E Antonio? “Eu cai do burro. Me lasquei todo. Tô aqui nesse calorão esperando vaga pra cirurgia”, conta, embora já salvo do tombo.
Vera Marta da Silveira, 51 anos, ficou horas em pé do lado de fora, na entrada da triagem. “Estou com problema de artrose há três anos, agora deu uma dor do lado da barriga e tenho problema novo de varizes”, conta. E por que está em pé, com dor? “Sentado dói”, retorna ela. Sua porta de entrada no sistema foi via Núcleo de Saúde (UBS). O médico pediu exame. Ela aguarda autorização pelo Ambulatório (AME) há três anos. “Enquanto espero o exame para artrose, vieram outras doenças. Já vim aqui várias vezes”, finaliza. 70% dos clientes diários do PS não são de urgência. Entre os demais, boa parte é de casos em que não há risco de morte. Nos corredores, as macas são de quem, em geral, está sendo medicado. Esses são os clientes de passagem rápida pelo local (soro, medicação, observação e alta).
EMERGÊNCIA
Pontos a considerar:
- O risco em atender os casos graves na UPA da Bela Vista na fase entre a estabilização e o transporte do paciente para o hospital;
- A relação entre risco, tempo, estrutura de UTI móvel e garantia dos sinais vitais do paciente da estabilização à cirurgia;
- Não demolir o PS e negociar área próxima, do Estado, para construir o novo complexo;
- Demolir o PS Central, mas transferir a primeira porta de atendimento para o PAI, mantendo o serviço acoplado ao Hospital de Base, até a construção do novo Centro de Referência;
- Avaliar custeio de manutenção de serviços de pré-internação para 55 leitos, repactuação com Estado e nova regulação.
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| Imagens divulgadas pela prefeitura mostram projeto do complexo de saúde, onde atualmente está o PS Central e o PAI, com 3,4 mil metros quadrados de área, contra 1,4 mil metros quadrados da atual |
‘Raio-X’ do projeto apresentado
Secretário detalha o projeto, que prevê demolir o prédio atual, transferir serviços até obras ficarem prontas, e criar Centro de Referência de Urgência
O prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD) apresentou como obra prioritária para seu início de gestão a construção do Centro de Referência de Urgência. Para isso, o secretário municipal de Saúde, José Eduardo Fogolin, defende a demolição do atual Pronto-Socorro Central e aponta a necessidade de R$ 12 milhões para a obra. Parte dos recursos serão assegurados de redução de despesa com custeio neste ano. O complemento ou virá de realocação orçamentária ou de contrapartida privada, conforme o secretário.
De acordo com Fogolin, o projeto contempla um complexo de saúde onde atualmente está o PS Central e o Pronto Atendimento Infantil (PAI), com 3,4 mil metros quadrados de área, contra 1,4 mil metros quadrados da atual. Para isso, junto ao novo serviço de urgência estaria acoplado o Centro de Diagnóstico.
“Primeiro nós queremos mudar a filosofia de atendimento do Pronto-Socorro em Bauru. Coordenei toda a rede de urgência e emergência e alta e média complexidade quando estive no Ministério da Saúde. Bauru vive o mesmo modelo de 20 anos. O PS Central não tem estrutura física e nem de modelo para atender às vítimas mais graves. Queremos instituir o Centro de Referência para pacientes graves serem atendidos nessa estrutura. Hoje, temos 25 leitos de enfermaria, considerando infantil e adulto. Por isso é que fica aquele monte de maca no corredor. A proposta é passar para 55 leitos”, menciona o secretário.
NOVA ESTRUTURA
O secretário acrescenta que não é apenas mudança estrutural, mas no modelo de atendimento. “Não é só derrubar prédio. É construir uma nova estrutura, porque a atual é antiga e não tem condições de ampliação. A régua de gases está entupida, enferrujada, as enfermarias são pequenas. A construção será no mesmo terreno, solicitando a concessão do Estado. Queremos Centro de Urgência para Adulto e Infantil. Nós perdemos quase 500 vidas nos últimos anos de pessoas que estavam no PS Central aguardando vaga. Queremos uma estrutura para acolher essa demanda e que já dê início ao tratamento antes da internação. Hoje, a vítima de trauma é estabilizada e, depois, fica em maca no corredor esperando vaga. É serviço de trauma e clínico”, diz.
O projeto é a vitrine deste início de mandato de Gazzetta. “Demolir é ousar para que a gente deixe esse legado para a população. Daqui a dois anos, com essa estrutura nova, vamos mudar a realidade do atendimento no segmento em Bauru. Isso é R$ 12 milhões de custo. Segundo o próprio prefeito, já temos boa parte reservada desse valor, vamos buscar emenda parlamentar. E, se der tudo certo, vamos fazer parceria público-privada (PPP) para construção com instituição que já mantemos relação, com a Faculdade de Medicina Uninove, que pode utilizar a rede para o ensino. Vamos pedir contrapartidas”, afirma.
Atendimento do trauma
Secretário de Saúde, o médico José Eduardo Fogolin avalia que o atendimento para casos graves não sofrerá dificuldades durante a fase de transição do novo projeto, entre a demolição do PS e a conclusão do novo Centro de Referência de Urgência.
“O trauma hoje não é internado todo no Hospital de Base. Quando tem vítima de crânio, criança por exemplo, vai pra Botucatu. Quando tinha relação germinada do PS com o Base, internava aqui. Já dei plantão no PS Central, em 2003, em que era feito o contato com o Centro Cirúrgico do Base e o paciente subia. Hoje, o processo regulatório (Cross) se dá em São Paulo e define a vaga que, em muitos casos, sai em outras cidades, como Catanduva, Botucatu”, argumenta.
Na visão de Fogolin, a adequação transitória atende a esta situação. “Com a possibilidade do Samu, uma UTI Móvel, a gente consegue fazer o transporte de paciente grave para as unidades de Bauru e de fora. Bauru é o único município com mais de 300 mil habitantes no Brasil que não tem porta aberta de urgência. Nesta fase, o trauma será deslocado para a UPA da Bela Vista. Temos batedores, temos apoio e conseguimos chegar lá com a mesma segurança do que no PS. O importante no paciente de trauma é estabilizar. Faz isso na UPA Bela Vista e o tempo de espera é o mesmo para aguardar vaga, que vamos discutir depois”, diz.
O projeto, ao final, terá a função também de acolher a demanda de pré-internação no PS, mas com 55 leitos, conforme o secretário.
Fases do novo modelo
- Projeto executivo e licitação até julho 2017
- Descentralização da pediatria para UPAS
- Mudar consultas de adultos do PS para UPAs
- Levar serviço de urgência e enfermaria para UPA Bela Vista
- Demolir prédio do PS Central e iniciar obra
- Conclusão do novo modelo em até dois anos
Caminhos da mudança: 4 etapas de adequações
| Malavolta Jr. |
| O secretário municipal de Saúde, José Eduardo Fogolin, prevê seis meses da licitação e um ano e meio para obras |
José Eduardo Fogolin menciona dois anos para a execução do projeto. “Temos seis meses para iniciar esse processo, concluir o projeto básico executivo e fazer o processo licitatório. A partir daí, a gente já inicia as adequações. Por exemplo, a grande maioria das fichas de atendimento da pediatria é dos bairros. Não é do Centro. Vamos mudar em quatro momentos”, expõe.
Ele detalha as etapas. “No primeiro momento, vamos descentralizar a pediatria para duas UPAs. No segundo momento, o atendimento da porta (consulta do adulto) vai para as UPAs também. E, no terceiro momento, a porta de urgência vai pra UPA da Bela Vista, que é mais estruturada que o PS Central. E a quarta fase é a enfermaria do adulto também ser deslocada”.
Feitas as adequações, a demolição do prédio do PS será realizada. “Mas só vamos iniciar a obra depois de adequar todas essas sazonalidades, para ver se acomodou tudo. Neste momento, pensamos em estruturar o atendimento da atenção básica para que volte a consulta espontânea, que não temos. Depois, tem de colocar médico nas UPAs para suprir e, hoje, quem vai no Centro será atendido nas UPAs. O Posto de Saúde do Centro tem de ser reestruturado para atender. O prazo do projeto é de dois anos. Considere seis meses da licitação e um ano e meio para obras, se tudo correr bem”, argumenta.
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| MELHORIAS: Fogolin diz que a mudança não é só estrutural, mas no modelo de atender |