09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os tambores de São Luís

Arnaldo Pinzan, prof. FOB-USP, membro do Lions e católico por opção)
| Tempo de leitura: 3 min

Recentemente, a repórter e apresentadora Mariana Godoy, entrevistou dois astrólogos, que atribuíram a uma conjunção e alinhamento dos planetas, as origens dessas adversidades vividas recentemente. Algumas tentativas de aproximarem às previsões apocalíticas também estão nessa roda de justificativas. Lendo, assistindo os telejornais, recebendo mensagens e vídeos pela internet, ficamos horrorizados com as cenas ocorridas nas penitenciárias. Darcy Ribeiro já afirmava que "se não construirmos escolas, daqui a vinte anos construiremos presídios". E ele estava certíssimo.

Dom Cândido Padin, bispo falecido de Bauru, vaticinou numa palestra que assisti que "enquanto o centro da cidade crescia em progressão aritmética, a periferia crescia em progressão geométrica e que esta sufocaria o centro da cidade". Também estava certo, pois os levantamentos demográficos mostram uma diminuição acentuada de filhos por casal nas classes sociais que mais estudo têm, inversamente à maioria da periferia, onde as informações escolares não chegam satisfatoriamente, originando casais com muitos filhos, precariedade no saneamento básico, hospitais abarrotados de pacientes com algumas doenças como zica, dengue, leptospirose, chegando agora assustadoramente doenças já erradicadas como a febre amarela e a sífilis, originadas de maiores desconhecimentos sobre higiene e vacinas. Nos presídios, a população carcerária é mostrada como um depósito de pessoas, onde graçam doenças como Aids, corpos tomados por doenças transmissíveis e que se alastram atingindo familiares desses mesmos detentos. Não dá para entrar na cabeça, como a selvageria e a desumanidade está tomando conta do ser humano, pois vídeos e fotos desse massacre no Amazonas, mostraram a frieza com que se decepam cabeças, mutilam-se corpos, guerreia-se pelo poder de dentro e fora dos presídios, pela destruição pelas drogas de milhares de pessoas, que à semelhança de zumbis, desfilam pelas cracolândias brasileiras.

Num tempo de maior temeridade aos preceitos religiosos, já ocorriam esses eventos, mas em proporções muito menores. Até esse respeito acabou, vendo as agressões gratuitas e até a imagens que como se viu recentemente, tudo em nome da religiosidade, onde cabeças são cortadas, o mar banhado em sangue por ideologias radicais. Como ter esperanças? Reunir forças para lutar?

Finalizei a leitura do romance "Os Tambores de São Luís", de Josué Montello, que foi Reitor da Universidade Federal do Maranhão, onde conta a saga de um negro chamado Damião, personagem imaginário, mas que serve de protagonista da extensa revisão histórica empreendida pelo autor. Além de uma linguagem culta, interessante, e principalmente magnetizante, inicia desde sua vida como escravo, fugitivo, "quase" padre, professor de latim, revisor e redator de alguns jornais e finaliza com a vitória de sua luta, quando a princesa Izabel declara a Lei Áurea. A sua luta é exemplar e desafiou grandes senhores da época, mesmo "sacrificando-se" e recebendo a sua alforria que, por muito tempo, foi ignorada. Chamou-me a atenção um personagem denominado Barão, que afirmou, depois de muitas de suas experiências vividas, que "o mundo foi feito pelo diabo, mas que Deus veio aqui para tentar salvar de suas maldades". Ainda hoje vemos o homem escravo do dinheiro, do poder, da ambição, das maldades engendradas, de atos políticos desafiadores e perversos que "matam" de diversas formas nossos irmãos. Vi numa reportagem recente, que um menino de 10 anos, com longa ficha criminal, quer ser assaltante de banco, matador e chefe de quadrilha, incentivado pela mãe que "fuma pedra". Quantos iguais a ele estão dispersos por esse país? É muito prático falar em punições e construções de novos presídios. A sociedade tem que se mobilizar para melhorar as perspectivas desses garotos, como tem se mobilizado politicamente e conquistando posições. Se me perguntarem qual o tijolo mais importante das paredes de casa, respondo que todos, por menor que sejam, desempenham importante papel no conjunto do meu abrigo. Assim, vejo a atuação de cada um de nós.