O ano começou quente com o massacre de 60 presos no Amazonas, seguido de outro morticínio em Roraima, onde 35 detentos perderam a vida em briga entre facções rivais. Chacinas nas prisões brasileiras deixaram de ser novidade. A tragédia do Carandiru, até hoje impune, continua recordista com 111 mortos em 1992. A diferença, neste caso, foi que o Batalhão de Choque da PM é que se encarregou de "pôr ordem na casa em legítima defesa", como reconheceu o Tribunal de Justiça de São Paulo. Ainda no ano passado tivemos a rebelião de Pedrinhas, no Maranhão, com 18 chacinados. As polícias do Amazonas e do Maranhão tentam recapturar centenas de detentos que fugiram.
Vivemos a cultura do "bandido bom é bandido morto". Para o governador do Amazonas José Mello, entre os presos sacrificados com tanta brutalidade "não havia santos". O então secretário Nacional da Juventude Bruno Júlio torce para que aconteça "uma chacina dessas por semana". Foi imediatamente substituído por Michel Temer que colocou no seu lugar Francisco Costa Filho, do Maranhão, que está com os bens bloqueados pela Justiça. É acusado de improbidades cometidas na sua miserável cidade, Pio XII, no Maranhão, onde prefeito e todos os secretários foram afastados. Um jornalista da BBC observou que, no Brasil, o senso ético foi decapitado e teve o seu coração arrancado, como o de muitos presos sacrificados.
O país tem a segunda maior população carcerária do mundo, depois dos Estados Unidos. A diferença é que as cadeias estão com o dobro ou o triplo da capacidade de lotação. A construção de quatro novos presídios federais, anunciados por Temer, mal aliviam meio por cento das necessidades. É possível melhorar a situação nas cadeias. Condenar e punir sem perder a humanidade. Uma das formas é a da aplicação de penas alternativas para autores de crimes cometidos sem violência. Misturamos usuários de drogas com traficantes, enquanto outros países tratam de descriminalizar a maconha. As celas superlotadas de bandidos de todos os graus de periculosidade recebem até quem não paga pensão alimentícia. O Estado exerce muito mal a função de habilitar e muito menos tem competência para reabilitar.
Quando a sociedade acuada, procura se defender com a mesma irracionalidade - "tem que matar, mesmo" - somente demonstra que perdemos os valores básicos de civilização. Aqueles que pregam a violência pela violência são chamados de fascistas, o mais vago dos termos políticos. Em 1946 George Orwell condenava o fascismo como algo "quase inteiramente sem sentido". Os ingleses usam a palavra como simples sinônimo de "valentão". Aqui, é muito usada como insulto político a qualquer figura opositora aos ideais de esquerda. Até o juiz Sérgio Moro é chamado de "fascista de direita". A estratégia é transformar o outro em ninguém, para ser alguém. Na verdade, o juiz de Curitiba apenas procura aflorar, e punir, a gênese de toda essa sujeira. Longe de ser concluída a Operação Lava Jato, surge agora a Cui Bono? (a quem beneficia, em latim). Trata da transformação da Caixa Econômica Federal em instrumento de distribuição de favores para obtenção de propinas. São mais de R$ 1,2 bilhão distribuídos para financiar empresas. Registros num smartphone aprendido com o ex-deputado, agora preso, Eduardo Cunha revela um diálogo mantido com ex-ministro Geddel Vieira Lima, onde ele se jacta de não ser "um desses ministros" indicado por Cunha. Como se quisesse dizer: "eu sou eficiente dentro da máquina", "consigo qualquer coisa". Às custas do dinheiro público, é evidente. A Veja anuncia que vem aí outra delação do fim do mundo. Desta vez de 40 executivos da Camargo Corrêa. Envolve cerda de 200 políticos que receberam propinas da empreiteira. Entre eles Michel Temer, Gilberto Kassab, Renan Calheiros, Romero Jucá, Antonio Palocci. Ou seja, os de sempre, com algumas variações. Corria um boato (desmentido pela Segurança) ontem em São Paulo, de que o PCC promoveria uma série de ataques em várias cidades do Estado, na terça-feira. Seria uma represália às transferências de 12 lideranças para presídios federais. O andar de baixo e o de cima estão agitados. O verão promete.