| Almir Lima |
| Bombeiros resgatam últimos 2 corpos que estavam presos à fuselagem do avião que caiu no Rio |
Três investigações foram abertas para apurar as causas da queda do avião que matou o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), e mais quatro pessoas na última quinta-feira (19), em Paraty (RJ). Representantes do Ministério Público Federal, Polícia Federal, Ministério Público e Polícia Civil do Rio, além do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa), da Aeronáutica, já estão empenhados em descobrir os responsáveis pelo acidente. A Câmara dos Deputados deve formar uma comissão externa para acompanhar os trabalhos.
De acordo com o MPE do Rio, a Promotoria de Justiça de Paraty acompanhou todo o trabalho das operações de resgate e identificação dos corpos, ao lado da Polícia Civil, da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros, PF e investigadores do Cenipa.
Os promotores pretendem ouvir testemunhas, como barqueiros que relataram ter visto o acidente, e vão aguardar a conclusão da perícia da Aeronáutica para avaliar os próximos passos da investigação. Ontem, os investigadores localizaram o gravador de voz do bimotor modelo King Air que caiu no mar com cinco passageiros. O aparelho foi encontrado em meio aos destroços da aeronave e estava em bom estado, segundo o Cenipa.
Ele registra todo o áudio dentro do cockpit e entre o piloto e a torre de controle em solo e pode ser uma peça central da investigação. O equipamento seria encaminhado ainda ontem para Brasília para que seu conteúdo passe por uma perícia. Não há previsão para a conclusão da análise da caixa de voz, que costuma ser instalado na calda dos aviões porque ela costuma ser a parte menos destruída em casos de queda.
“Se a perícia da Aeronáutica concluir que o acidente foi provocado por imperícia, o caso estará encerrado. Mas, se não for essa a conclusão, as investigações continuarão em busca das causas da queda”, disse o promotor de Justiça Vinicius Ribeiro, titular da Promotoria de Justiça de Paraty. Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que as condições climáticas adversas sejam a principal hipótese para a causa do acidente.
“Acidentes semelhantes têm se repetido com certa frequência nessa região, que é montanhosa e não tem apoio de navegação auxiliar. Se há chuva e baixa visibilidade, como estava na hora do acidente, os riscos aumentam muito”, afirma Miguel Rodeguero, diretor de segurança operacional da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves. “A meteorologia mostrou que havia uma nuvem cumulusnimbus, que é verticalmente extensa e provoca rajadas de vento violentas que desestabilizam a aeronave”, relata Fernando Catalano, professor de engenharia aeronáutica da USP.
Temer espera Corte definir relator da Lava Jato
O presidente Michel Temer disse a auxiliares que o “cenário ideal” para a escolha do substituto do ministro Teori Zavascki - morto aos 68 anos em acidente de avião na quinta-feira - seria após a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, definir o novo relator dos processos da Operação Lava Jato na Corte.
Além da preocupação de “não atropelar” o Supremo, Temer quer evitar um desgaste político ao escolher o sucessor do ministro. Por ser jurista e professor de Direito Constitucional, assessores dizem que Temer deve fazer uma indicação mais pessoal. A presidente do STF afirmou que não trataria do tema antes do funeral de Teori. Para o ministro Gilmar Mendes, que estava na Europa e voltou para acompanhar o enterro, a Corte deverá discutir sobre a redistribuição do processo da Lava Jato depois das cerimônias.
“Vamos aguardar os acontecimentos, vamos aguardar a cerimônia do funeral para depois cuidar dessas questões e dar o melhor encaminhamento”, disse o ministro. Abatido, Gilmar afirmou que a morte de Teori é uma grande perda e citou, em rápida entrevista, por duas vezes a necessidade de se preservar a estabilidade do País. Ele descartou o risco de que a morte do colega de Corte possa colocar em risco o andamento da Lava Jato. “Não acredito (no risco). A responsabilidade institucional do Supremo está acima de tudo.”
Nessa sexta-feira (20), o presidente nacional da OAB, Claudio Lamachia, defendeu que o STF redistribua imediatamente os processos da operação. Para ele, aguardar a nomeação do sucessor do ministro para que as ações sejam redistribuídas “servirá apenas para agravar o ambiente político-institucional do País”.
COTADOS
Nessa sexta (20), Temer recebeu no Planalto os ministros da Justiça, Alexandre de Moraes, e da Advocacia-Geral da União, Grace Mendonça, ambos nomes ventilados como possíveis substitutos de Teori no STF.
Contra eles, no entanto, pesa o fato de serem ligados ao Planalto, o que poderia indicar alguma tentativa de interferência.
O discurso oficial do governo de imprimir uma rapidez na escolha do nome é que isso seria uma estratégia para diminuir as pressões sobre o Planalto, mas elas já vieram e de todos os lados.
Família decide por enterro em Porto Alegre
O corpo do ministro Teori Zavascki será velado hoje no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre. O velório será aberto ao público a partir das 11h. Teori será sepultado ainda no sábado, às 18h, no Cemitério Jardim da Paz, também na capital gaúcha. A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, e o presidente Michel Temer vão acompanhar o funeral.
“Havia uma dúvida se o velório seria no Supremo Tribunal Federal, como é de praxe. A decisão foi da família”, disse o presidente em exercício do TRF-4, desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz.
“Cármen Lúcia disse que chegaria sexta à noite, pois gostaria de esperar a chegada do corpo ao lado da família”, disse Thompson. Além da ministra e Temer, são esperados os ministros José Serra (Relações Exteriores) e Alexandre de Moraes (Justiça). O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também deve comparecer.
A direção do TRF-4 espera grande público no velório. O plenário do tribunal, cujo prédio foi inaugurado quando Teori presidia a corte, será usado para o velório. Ele atuou por mais de 14 anos no TRF-4, que também é a segunda instância da Lava Jato, da qual o ministro era relator no STF.
PREPARATIVOS
Funcionários da corte que chegaram a trabalhar com o ministro destacaram o fato de que os carpetes e as poltronas do plenário são vermelhos, cor do uniforme do Internacional, arquirrival do Grêmio, time do qual Teori era diretor e chegou a ser conselheiro. Ontem, um grupo de funcionários da prefeitura de Porto Alegre aparava a grama das ruas e calçadas próximas à sede do tribunal para preparar o local para o velório. O clima no TRF-4 era de tristeza. “Quero deixar registrado o vazio que a morte do ministro Teori deixa no meio jurídico em geral e em especial aqui no TRF-4”, afirmou o presidente em exercício do tribunal.
Em princípio, a família pretendia que o sepultamento fosse em Faxinal dos Guedes, no interior de Santa Catarina, terra natal do ministro, mas Porto Alegre prevaleceu por ser a cidade onde vivem os três filhos de Teori. A cerimônia será fechada apenas para a família e convidados. Será realizada uma missa de corpo presente celebrada pelo arcebispo metropolitano d. Jaime Spengler. O local não foi definido, mas deverá ser ou no TRF-4 ou durante o sepultamento.
RESPEITO
Ao desembarcar em Brasília, após chegar de viagem na Suíça, o procurador--geral da República se recusou a dar entrevistas: “Luto. Respeito aos mortos”, limitou-se a dizer Janot. Ele apressou sua volta da Europa ao receber a notícia da morte de Teori. O ministro Luiz Fux, do STF, também lamentou nesta sexta a morte do colega com “profundo sentimento de pesar. “O ministro Teori foi e será daquelas pessoas das quais não só nos lembraremos sempre, mas, antes, jamais o esqueceremos pelo bem que realizou em prol do País e da Justiça”, disse Fux.