08 de julho de 2026
Geral

O árduo caminho até a dignidade

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Parque das Nações: Lincon Gabriel da Silva, Carlos Eduardo Bispo, Thais Brito da Silva, Kemily da Silva, Luciana Oliveira, Otávio, Samara, Emanueli e Sidnei Oliveira: de dentro de casa, Luciana vê o rio

Um pequeno quintal improvisado separa o rio da casa de Luciana de Oliveira, no Parque das Nações. Quando chove, tudo alaga. Dia desses, não era possível distinguir onde começava e onde terminava o corpo d'água. Na estiagem, o odor de esgoto incomoda. Frequentemente, sapos tomam conta da sala e do quarto, onde vivem a dona de casa de 32 anos, seu marido e quatro crianças (de 13, 7, 6 e 1 ano). A família foi contemplada pelo programa Minha Casa Minha Vida e já recebeu as chaves de um dos apartamentos do residencial Chácara das Flores, para onde deve se mudar nesta semana. A realização do sonho, porém, se tornou motivo angústia e insegurança.

Luciana não vê a hora de deixar o imóvel, onde o companheiro vive há 16 anos, mas não sabe se conseguirá arcar com as despesas decorrentes da nova vida. A única fonte de renda fixa da família é o salário mínimo - de R$ 937,00 - recebido do governo federal em razão da deficiência de sua filha Emanuele, de 6 anos.

O marido faz bicos como ajudante de pedreiro, mas só recebe R$ 60,00 a cada dia de serviço. Muitas vezes, não há demanda para trabalho, fato que se tornou rotineiro no último mês, por conta das chuvas.

A família foi contemplada pelo Minha Casa por ser uma das 53 que moram em áreas de risco no Parque das Nações. A notícia foi recebida com extrema felicidade, mas a conta da vida nova não fecha.

O imóvel é subsidiado pela União, mas, por dez anos, Luciana e o companheiro terão que arcar com a parcela do financiamento, de R$ 88,00 ao mês. Pesa ainda mais sobre o escasso orçamento familiar a taxa condominial definida, de R$ 145,00, despesa que não existiria caso as unidades do programa de habitação de interesse social fossem horizontais.

Os primeiros R$ 233,00 foram pagos graças à ajuda de pessoas que conhecem a realidade da família e se esforçaram para contribuir com a realização do sonho. Esse acerto inicial, relata a dona de casa, foi exigido para que as chaves do apartamento fossem entregues.

A partir do próximo mês, no entanto, não há garantias de que a família consiga honrar essas despesas, às quais se somam as contas de energia e água.

E A COMIDA?

"Hoje, a gente não paga nada disso e só não falta comida, graças à ajuda desse anjo", afirma Luciana. Ela se refere à Maria Inês Faneco, integrante do grupo Esquadrão do Bem, que, com a colaboração de voluntários, assiste a dezenas de famílias em situação de vulnerabilidade social de Bauru.

"É muita miséria. Essas pessoas queriam tanto isso. Só que o sonho está se transformando em pesadelo. Elas sabem que, se não pagarem tudo, vão perder o apartamento. E para onde elas vão depois?", questiona "o anjo", com os olhos marejados.

É só dar uma volta pelo Parque das Nações para constatar que a história se repete. Na maioria dos casos, falta dinheiro até para a compra e instalação dos kits gás para os apartamentos, que custam um pouco mais de R$ 80,00, já que apenas algumas famílias receberão ajuda da Prefeitura de Bauru.

Letícia Silva de Lima, 21 anos, vendeu o telefone celular para pagar a primeira parcela do financiamento e a primeira taxa de condomínio.

Ela vive com a filha de 1 ano e o marido, que faz bicos, apenas com o valor recebido pelo Bolsa Família, de aproximadamente R$ 150,00. "Não sei como a gente vai pagar. Mas não dá para esperarmos mais aqui. É só chover que a gente fica desesperado. Já temos as chaves, mas nos informaram que estão esperando todo mundo pagar para que a prefeitura faça a mudança de uma vez só", reclamou.

Quem quiser ajudar as famílias pode entrar em contato com a Maria Inês Faneco pelo telefone: (14) 9 9675-5495.

Famílias em áreas de risco temem o que pode acontecer se chover mais

O banheiro já rodou barranco abaixo. O quarto está prestes a cair. O telhado também foi embora no último temporal e uma lona improvisada cobre o barraco na favela do Jaraguá, onde moram Jaçanã Camargo de Souza, 22 anos, o marido e seus três filhos.

"Só não cai tudo porque a gente fez várias amarrações, mas não sei a gente consegue ficar aqui se chover forte de novo", teme a dona de casa.

O barraco está, de fato, pendurado e, mesmo sem saber como pagará pelo financiamento e pelo condomínio, Jaçanã está ansiosa para a liberação das chaves do residencial Manacás.

Ela foi contemplada pelo Minha Casa Minha Vida e viverá em um dos apartamentos do empreendimento, ainda sem previsão para ser entregue.

"Falavam que seria em dezembro, depois janeiro e agora fevereiro, mas a gente não sabe. Até lá, o que vamos fazer? Até meu filho de 2 anos já rolou naquele barranco. Enquanto a gente não muda, a prefeitura poderia nos ajudar ao menos com terra para minimizar o risco disso tudo rodar".

Reajuste no financiamento

Desde 2009, as parcelas pagas pelas famílias de baixa renda contempladas pelo Minha Casa Minha Vida variavam de R$ 25,00 a R$ 80,00. Para os contratos assinados a partir do 2º semestre de 2016, os valores foram reajustados e, agora, variam entre R$ 80,00 e R$ 270,00

Em maio do ano passado, o Jornal da Cidade revelou que o governo municipal tentava correr contra o tempo para viabilizar todos os empreendimentos em construção antes desse reajuste, mas os futuros moradores dos residenciais Chácaras das Flores e Manacás terão que pagar os novos valores.

Município promove trabalho técnico-social

A Prefeitura de Bauru informou que a transferência das famílias incluídas na demanda dirigida pelo Minha Casa Minha Vida para os residenciais Chácara das Flores 1 e 2 começará nesta semana, em data a ser confirmada. O município alega, porém, que as famílias não se mudarão todas de uma vez.

A comunicação do governo esclarece ainda que o trabalho técnico social junto aos assistidos pelo programa já está em andamento e continuará após o reassentamento dos contemplados.

Essas atividades, segundo a prefeitura, têm como objetivo proporcionar a execução de um conjunto de ações de caráter informativo e educativo, junto aos beneficiários dos empreendimentos residenciais, "que promova o exercício da participação cidadã e favoreça a organização da população e a gestão comunitária dos espaços comuns, na perspectiva de contribuir para fortalecer a melhoria da qualidade de vida das famílias e a sustentabilidade do empreendimento".

O município esclarece que a gestão sobre contratos e valores das parcelas cabe à Caixa Econômica Federal essa gestão.

Sobre o Residencial Manacás, em fase de construção, e o último desta etapa do programa MCMV, ainda não há data prevista para a entrega.

Para o Chácara das Flores 1 e 2, serão transferidas, de imediato, 14 famílias do Jardim Yolanda, 53 do Parque das Nações, 34 da comunidade São Manoel, 14 do Jardim Marise, 8 do Gerson França e 34 da comunidade Piquete