09 de julho de 2026
Articulistas

Meio ambiente e gestão energética municipal

Braz Melero
| Tempo de leitura: 3 min

"Pensar apenas ou desejar somente nunca levou ninguém a lugar nenhum. É necessário ação". Após adotar o ensinamento de Shakespeare para a gestão de governança municipal, valho do perfil desejável de prefeito, traçado pelo jornalista e cronista, João Jabbour, neste jornal, no último dia 16: "...deve ser dotado de sensibilidade e habilidade política. Conhecimento também é essencial, pois é a base da sabedoria".

Nessa linha de raciocínio, todos os prefeitos têm a informação de que na maioria dos municípios o maior consumidor de eletricidade é a prefeitura. Porém, nem sempre têm conhecimento do que isso representa para natureza, para que seja "a base de agir com sabedoria". Gerar, transmitir e distribuir energia elétrica até o ponto de consumo são ações mais complexas do que aparentam. Exigem apurada tecnologia, "rigoroso estudo ambiental", conflitos pessoal e étnico, além de envolver aspectos, legal, econômico, social e político.

Para gerar eletricidade a quatro chuveiros, no horário de pico, em média, inunda um hectare de terra e sacrifica 1.800 árvores. Além deste conceito usual no setor, nas entrevistas e palestras, tanto no setor elétrico como na prefeitura, voltadas para públicos de diversos níveis, com intuito de sensibilizar o uso racional de energia, valia de uma analogia palpável: primeiro enchemos o tanque de combustível do veículo, pagamos e depois usamos. Com a energia elétrica acontece o contrário: primeiro consumimos sem monitoramento e só depois pagamos.

Ainda com referência à gestão municipal, vale considerar o ensinamento de Kaoru Ishikawa, criador de ferramentas aplicadas à qualidade total: "Quem não tem item de controle não gerencia nada". Em vista disso, como mencionei neste espaço em 07/julho/16, pela complexidade do assunto, há necessidade de os municípios valerem-se de "unidades de inteligência" para que possam desenvolver a Gestão Energética Municipal - GEM, em todos pontos de consumo das prefeituras, inclusive na Iluminação Pública - IP. A orientação da Eletrobrás nesse sentido ocorreu em 1996. Em 1998 foi incorporadora à Rede Cidades Inteligentes - RGE, extensiva à água. Em 2001, a Secretaria Estadual de Energia expediu valioso manual a respeito.

Em Bauru, denominada como Gestão Energética Municipal Ampliada - GEMA (objetivava o controle da água), existiu apenas de 2000 até 2004. Recém- chegado à prefeitura, implantá-la com o auxílio do eletrotécnico João Lima foi um processo natural. Nesse curto espaço de tempo havia vários fatores adversos: a prefeitura havia herdado uma dívida com a CPFL de R$ 4,8 milhões; a Taxa de Iluminação Pública - TIP (atual CIP) era uma das quatro taxas suspensas, fruto de ações judiciais a nível de Bauru.

Foram os únicos 58 meses em que Bauru ficou sem a TIP/CIP. Pasmem... a fatura da IP representava 5% do orçamento municipal (hoje, não representa 2%). Em função dessas adversidades, na área de energia, a prefeitura não tinha recurso financeiro para investimento e pagar fatura. Mesmo assim, a GEMA cumpriu a segunda parte do ensinamento de Shakespeare, "com ações", utilizando os consagrados pilares de gestão: planejar, executar controlar e avaliar de resultado. A maioria das "ações" foram com parcerias de imobiliárias e interessados: zeramos déficit de 2.100 pessoas sem eletricidade (500 no B. Manchester); aumentamos 1.974 pontos de IP; Monitoramos e reduzimos em mais de 20% o consumo médio de 312 contas/mês (JC-12julh01); monitoramos IP das avenidas e ruas; reduzimos em 10% o valor da fatura DAE (revisão contratual); abortamos 180 contas/ano de painéis e relógios de terceiros, até então pagos pela prefeitura; projetamos a expansão e eficientização da IP, após três meses dentro da CPFL e visita ao campo (deixamos como legado).

Após 2005, na contramão de preceitos ecológicos, os gestores ignoraram todo legado e retornaram a atividade à área operacional e lá permanece até hoje. Talvez inspirado em Guimarães Rosa: "A gente só sabe bem aquilo que não entende".