08 de julho de 2026
Articulistas

Vamos parar!

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Vamos parar de sapatear em sepulturas. De vibrar com o fim alheio. Vamos parar com essa alegria mórbida pelo infortúnio do outro. De se sentir por cima ao primeiro tropeção de quem anda à frente. Vamos pensar.


Por que continuar com tanta histeria e radicalismo se nada disso traz alegria e equilíbrio? Vamos parar com esse papo de comemorar o defeito do próximo: visão aguçada para ver o ruim além de si, mas embaçada para com os próprios erros.


Vamos parar de brincar tanto de soberba e soberania. Bobagem se achar muito melhor em um mundo tão nivelado. Vamos correr de tanto rancor, vamos nos fixar em cargas menores de horror.


Onde vamos parar com tanta superficialidade, tanto moralismo? Vamos refletir mais em silêncio antes de “cornetar” tudo e todos. Vamos beber em fontes mais seguras e evitar arroubos de ignorância pura. Vamos?


Precisa ser plural. Precisa ser mais gente a parar de se deixar levar pelas tentações do fútil e do mal. Melhor mesmo é parar para ler algo bom. Uma frase boa. Guardei duas que parei para ver durante a semana.


Uma é do poeta inglês John Keats (1795/1821): “Algo belo é uma alegria para sempre”. Outra foi dita por um personagem do filme mexicano “La vida inmoral de la pareja ideal” (2016): “Um brinde pelo dia em que ninguém perguntará com quem dormimos, mas sim com que ilusão despertamos”.


Taí: vamos parar ver bons filmes. Sem pressa de acelerar as cenas. Já estamos acelerando cenas demais na vida real. A ponto de não pararmos para respeitar o momento dos outros. Atropelamos sem lamentos. Desperdício de sentimento.


Parar pode ser curtir, saborear, até interagir. Vamos desejar um mundo com mais paradas, como nos tempos das antigas estações. Com menos aceleração porque pausa também é avanço.


Parar para ver no que dá. Parar para valorizar mais e vilanizar menos. Se não melhorarmos nossas intenções e nossos vínculos, o caos emocional (geral) talvez acabe sendo a última parada. Tanto poderio vai parar em nada.

O autor é editor executivo do JC