10 de julho de 2026
Geral

27 idosos da Vila Vicentina retornarão à escola na segunda

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Douglas Reis
Avelino Alves dos Santos, de 81 anos, só teve a oportunidade de estudar até o 5.º ano

Pelas mãos calejadas de Avelino Alves dos Santos, de 81 anos, há uma letra de menino. O soldador aposentado estudou até o 5.º ano e cultivou, por décadas a fio, o sonho de continuar aprendendo. A partir dessa segunda-feira (6) Avelino, que frequenta a Vila Vicentina há 12 anos, retornará à escola. O projeto de alfabetização de 27 idosos da entidade é uma iniciativa da Educação de Jovens e Adultos (EJA), órgão vinculado à Prefeitura de Bauru.

Nascido em Rio do Antônio, no interior da Bahia, o aposentado é filho de mãe solteira. A infância difícil, marcada por preconceito e pobreza, não tirou sua vontade de aprender. “Eu só não tive oportunidade”, lamenta. Avelino nunca havia sequer pisado em uma escola até completar 25 anos, momento em que começou a trabalhar em uma indústria de São Paulo e teve a chance de estudar até o 5.º ano. “Trabalhava de dia e estudava à noite”, relembra, com orgulho e saudosismo.

Antes de, finalmente, ter sua carteira assinada, Avelino saiu de Rio do Antônio rumo à Cafelândia (83 quilômetros de Bauru), aos 15 anos. Acompanhado da mãe, da irmã, do cunhado e do sobrinho, o então adolescente começou a trabalhar em uma roça de café, situada no município vizinho de Bauru. O cansaço, provocado pela fusão entre o intenso esforço físico e o sol a pino, não impediu que cultivasse o sonho de dominar a leitura e a escrita.

Na época, ele conheceu José Rosa, um trabalhador rural a frente de seu tempo, porque o pouco que sabia repassava aos colegas. “Era um homem muito inteligente”, admira. O professor improvisado acabou ensinando Avelino a ler e a escrever.

Em 2003, já aposentado, o idoso chegou a Bauru, influenciado por sua segunda esposa, cuja família vivia na cidade. Dois anos depois, passou a integrar o Centro Dia, na Vila Vicentina, que desenvolve atividades junto aos idosos de segunda a sexta-feira. Estes, por sua vez, retornam às suas respectivas casas quando o sol se põe.

Avelino, então, foi convidado a participar do projeto de alfabetização. Assumiu o compromisso sem titubear. “Eu tenho dificuldade para escrever. Às vezes, troco ‘s’ pelo ‘z’. Quero aprender direitinho e, ainda, estimular o cérebro. Não dá para ficar parado”, justifica-se.

ENTENDER O MUNDO

Já a aposentada Janete Rosa Fernandes Matheus, de 74 anos, que também estudou até o 5.º ano, aceitou o desafio porque quer entender o mundo. “Muitas vezes, vejo as notícias e não compreendo”, reconhece.

Nascida e criada em Bauru - mais especificamente, no Jardim Bela Vista, conforme faz questão de destacar -, Janete começou a estudar com a idade adequada, porém, decidiu dar um tempo para trabalhar. Em seguida, casou-se, teve filhos e construiu a vida em prol de seu lar.

Os filhos cresceram e o marido, com quem conviveu por 50 anos, morreu. O luto foi extenso e, antes que se entregasse à depressão, a idosa resolveu frequentar o Centro Dia, há dois anos. Enfim, ela voltou a sorrir. Agora, há outro motivo para tanto: retornar à escola. “Quero evoluir e estar por dentro de tudo”, comenta.

Também nascida e criada em Bauru, a aposentada Neusa Maria da Silva, de 62 anos, integra o Centro Dia há três. Da infância no sítio, ela se recorda da dificuldade de chegar à escola. “Andava quase uma hora e, quando chovia, meu pai me levava a cavalo”, relata.

Recentemente, Neusa sofreu um derrame e perdeu o movimento do lado direito do corpo. Focada, ela reaprendeu a viver apenas com a parte esquerda. “Lavo louça, faço comida e escrevo até melhor, sabia?”, orgulha-se. Assim como Janete, a idosa mostra-se empolgada diante da ideia de voltar à escola.

Idosos terão materiais, uniforme e até merenda

Orientados pela professora Nilva Bragante Gonçalves, com 25 anos de experiência na Educação de Jovens e Adultos (EJA), os idosos terão material escolar, uniforme e, até mesmo, uma merenda seca - composta por barra de cereal, suco e frutas -, devidamente projetada pelos nutricionistas da prefeitura.

É o que revela a diretora de divisão da EJA de Bauru, Andréa Cristina Soares Juarez. Segundo ela, a ideia surgiu durante a Semana da Terceira Idade, celebrada no ano passado, momento em que os professores passaram pelo processo de remoção, ou seja, optaram pelos locais onde gostariam de atuar, preferencialmente, aqueles que ficam mais próximos às suas respectivas casas.

Como a responsabilidade de educar jovens e adultos até o 5.º ano cabe ao município, Andréa resolveu unir o útil ao agradável. “É uma forma de garantir certa independência aos idosos, principalmente, na hora de ler uma receita médica ou pegar um ônibus”, exemplifica.

Baseada nos ideais de Paulo Freire, a metodologia de ensino será adaptada, de forma lúdica, ao público-alvo.

Qualidade de vida

Presidente da Vila Vicentina, José Roberto Pires Machado destaca que a ideia partiu da EJA e, de pronto, foi acolhida. “Temos como principal objetivo proporcionar qualidade de vida aos nossos ‘meninos e meninas’”, argumenta. Para ele, saber usar as palavras contribui para que os idosos tenham uma interação maior junto à sociedade.

Dos 27 alunos voluntariamente inscritos no projeto de alfabetização, 80% só conseguem assinar o próprio nome. Do total, 12 são abrigados na Vila Vicentina e o restante frequenta o Centro Dia. As aulas ocorrerão de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h, na antiga cozinha da entidade, que já foi adaptada. No contraturno, os idosos continuarão com suas atividades rotineiras.

Além de ceder o espaço e, claro, os estudantes, a Vila Vicentina disponibilizará dois cuidadores para acompanhar todo o processo. Atualmente, a instituição conta com 47 idosos abrigados e 30 integrados ao Centro Dia.