| Fotos: Arquivo pessoal |
| Henrique fará show no Sesc Bauru em 8-2 |
| Com a mulher, Camila Luchiari, em atual |
Henrique Rosa é um observador. Se o vendedor de jogo do bicho grita “borboleta!” e a mulher dele completa “só tem duas”, isso vira música: “Borboleta: só tem duas”, gravada com Camila Kerr, sobrinha do ribeirão-pretano Kiko Zambianchi, em álbum de Henrique de 2011.
Já a música de Henrique Rosa tem um lugar singular no cenário de Bauru. Explica-se: as primeiras e decisivas fontes (musicais) irrigaram sua criatividade por aqui na juventude, mas quis o destino que a sequência de sua obra desaguasse em Ribeirão Preto, onde vive.
De Ribeirão virá, como ocorre de tempos em tempos, para rever os amigos e fazer um som bom na quarta-feira bauruense. Até lá, para quem já conhece, pode nesta página não só matar saudade como se atualizar sobre como está o cantor, compositor e publicitário hoje, aos 45 anos.
Se você desconhece de quem estamos falando, vale seguir com a leitura da mesma forma. Em tempos de chatos comentaristas sobre tudo e vazios protagonistas do nada, Henrique Rosa é uma espécie de antídoto: com conteúdo e contundência, mas sem perder a graça.
Jornal da Cidade - Em que momento da infância despertou para a música?
Henrique Rosa - Meu primeiro impacto musical foi bem cedo, por volta dos cinco anos, com a banda do coreto em Piratininga, cidade onde nasci. Ao perceber meu encantamento com as marchinhas e dobrados, não demorou para que meu pai me colocasse sentado ali, na muretinha do coreto, acompanhando a banda com meu bumbo de brinquedo. Todo domingo era assim. Ali comecei a ser músico. Ainda tenho lembranças vívidas desses momentos. Há alguns anos, reformaram e colocaram grades no coreto, ficou parecendo uma gaiola. Quando olho, tenho a sensação de que encarceraram a poesia.
JC - Quando passou a ter desenvoltura para compor?
Henrique Rosa - Acho que por volta dos 16 anos, quando fiz “Homem Magro”. Uma música inspirada na insustentável leveza dos 56 quilos que eu pesava na época. O fato de ser muito magro me incomodava. Até me dar conta de que os ídolos que eu adorava, e nos quais eu me projetava, eram todos magros: Raul, Caetano, Mick Jagger, Woody Allen... Os caras eram magros, mas não eram nada fracos. Foi minha primeira música que deu certo, que as pessoas achavam graça, memorizavam e saiam cantando. Até hoje ela é atual.
JC - Adolescência: quais as influências musicais que, de lá para cá, não se esgotaram?
Henrique Rosa - Itamar Assumpção, pela liberdade criativa, sutileza e singularidade. Raul Seixas, por ser simples e profundo ao mesmo tempo. Rita Lee, pelo deboche, humor e espírito de contestação. E os Beatles, por serem os Beatles.
JC - Fale um pouco sobre suas bandas da época de Bauru?
Henrique Rosa - A primeira banda profissional que integrei foi a Alta Classe Banda Show, do grande Décio Martins. Eu tinha 16 anos e estudava no Objetivo Bauru quando ele me convidou pra ser o tecladista. Uma banda que marcou época e que fazia bailes por várias regiões do Brasil. Até hoje agradeço pela oportunidade de ter vivenciado essa experiência na estrada e ao lado daquelas pessoas. Depois, foi a Gelatina Dialética, onde tocávamos músicas minhas, da Rachel Queiroz e do Edson Lallo. Chegamos até a gravar uma demo e tocamos no Sesc uma vez. Mas o grupo em que toquei por mais tempo foi o Capim na Lua, ao lado do Edson Lallo, Lilo Zuim, Chitão e Ralinho. Foi no comecinho dos anos 90, uma época memorável. E mais recentemente, a banda Caldo Mágico, com os alquimistas Marco Zambon, Norberto Motta, Paulinho Saca e Emerson Pollice. Ainda fizeram parte do caldo o Fernando Lima e o Jaiminho.
JC - Como Bauru segue, de alguma forma, inspirando sua criação?
Henrique Rosa - Moro em Ribeirão Preto há 20 anos, mas estou sempre em Bauru. Lugar de tantas lembranças e pessoas queridas, onde me sinto em casa. Adoro a atmosfera da cidade. Outro dia estava pensando: eventos que marcaram época como o Festival de Águas Claras, aí pertinho, o Festival de Rock do Vale do Igapó e também bares tradicionais e longevos, como o Armazém e o Templo, dizem muito sobre a personalidade de Bauru. Uma cidade sempre inspiradora.
JC - E os músicos de Bauru?
Henrique Rosa - A cidade tem uma cena musical muito rica e multifacetada. Você encontra jazz de alto nível, rock de primeira, blues, MPB, enfim, música da melhor qualidade. Bauru tem músicos incríveis e de grande personalidade artística. Pessoas com quem sempre tive a honra de tocar e o prazer de conviver. São irmãos para mim. Foram eles que me deram um lugar na música.
JC - Para onde vai a música brasileira, Henrique?
Henrique Rosa - Difícil dizer. De um lado você tem a música de entretenimento, que revela uma profunda decadência estética. Fruto de uma visão preconceituosa e equivocada de que “quanto mais bizarro, mais popular“. De outro, vejo uma nova geração mais estilizada, onde os artistas são genéricos uns dos outros, sem muito espaço para singularidades. Com a indústria do jabá e a ditadura de mercado, o poder econômico é que acaba mandando. Sinto que, nos tempos de hoje, um Caetano ou um Chico dificilmente aconteceriam nacionalmente. Penso que as coisas mais interessantes estão em nichos, não no “mainstream”. Como diria o Itamar Assumpção: “Pra ter cultura, tem que ter jogo de cintura”.
JC - Para onde vai a sua música?
Henrique Rosa - Espero que ela vá para outros Sescs e espaços abertos para a música autoral. Minha vontade agora é pegar a estrada com a banda e ver o que acontece. Também lancei uma coletânea virtual, com músicas dos meus dois CDs chamada Fora da Gravidade da Lei. Está no deezer, spotify, iTunes, emusic e amazon. São minhas garrafas jogadas ao mar.
JC - Como será o show na quarta-feira?
Henrique Rosa - O show será com a banda Fora da Gravidade da Lei, que montei em Ribeirão, com Tiago Adorno (guitarra, piano e vocais) Leandro Cunha Lima (baixo e vocais) e Rafael Adorno (Bateria e vocais), grandes músicos e meus mais novos amigos de infância. Vamos tocar no Sesc, quarta, a partir das 21h e com entrada gratuita, músicas dos meus dois CDs (“Velho de Saia”, de 2003/2004, e “Pedaço de Assovio”, de 2011), além de alguns covers pra lá do lado B.
JC - Na sua mistura atual, autoral: sente-se ser mais o quê?
Henrique Rosa - Talvez um híbrido de rock com MPB, só que não [risos].
Raio-X
Nome completo: José Henrique De Rosa
Data e local de nascimento: 26 de abril de 1971 - Piratininga
Idade: 45
Signo: Touro
Pais: Marilene Pita e Rosa e Élio Pires Rosa, de Piratininga
Irmã: Mari De Rosa, de Bauru
Casado com... psicanalista Camila Luchiari com quem vive ao lado de Heloísa, filha de Camila
Religião: Música
Formação: Letras
Um cantor: Roger Daltrey
Uma cantora: Cássia Eller
Um compositor: Itamar Assumpção
Um músico: Egberto Gismonti
Um lema: Não ter lemas
Quem mais desafina hoje no Brasil (em qualquer área): os donos da verdade
Um recado para quem está começando na música: prega o pau!
Cantar é... mover o dom
Você sabia?
Henrique Rosa iniciou jornalismo em Ribeirão, voltou e começou curso de música na USC, depois psicologia e letras também lá, concluindo letras em Franca. É, hoje, músico, criador de jingles e redator publicitário em Ribeirão.