08 de julho de 2026
Geral

Um oásis bem na zona de conflito no Líbano

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Renan Casal
Embaixador do Brasil no Líbano, Jorge Kadri: laços econômicos entre países podem avançar

Um país com 4 milhões de habitantes (um terço da cidade de São Paulo), com território equivalente ao do estado de Sergipe, cercado por vizinhos em guerra. A conjuntura faz do Líbano de hoje um oásis em meio a uma zona extremamente conflituosa. Embaixador do Brasil por lá desde 2014, Jorge Geraldo Kadri passou por Bauru recentemente e, acompanhado do deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), concedeu entrevista ao Jornal da Cidade.

As fronteiras libanesas são cercadas pelo mar Mediterrâneo, por Israel e pela Síria, epicentro da maior crise mundial da atualidade e principal ponto de partida de milhares de refugiados que tentam chegar ao continente europeu. O estado judeu, por sua vez, vive conflitos históricos.

Ainda na região, Iraque, Arábia Saudita e, mais recentemente, a Turquia passam por crises motivadas por um abrangente e complexo leque de fatores. Depois de superar a guerra civil, que durou de 1975 a 1990, o Líbano, porém, passa por um período de tranquilidade.

“A vida lá é muito agradável. Não tem guerra. Vive-se maravilhosamente bem, de maneira muito mais segura do que nas grandes cidades brasileiras”, relata o diplomata, de origens libanesas. Garantir a manutenção da estabilidade, contudo, exige, segundo Jorge Kadri, muita sabedoria e articulação.

“Somos muito pequenos em meio a gigantes. Israel é até proporcionalmente parecido, mas é uma grande potência militar. Para sobreviver nesse contexto, o País precisa articular até com o Vaticano. O papel tem interesse em proteger a minoria cristã que se preserva por lá em 35% da população”, conta.

Kadri explica que o alinhamento aos Estados Unidos e à China também é crucial para que o Líbano obtenha investimentos e consiga manter-se neutro, evitando, assim, que o conflito chegue às suas fronteiras.

O embaixador destaca o papel do exército libanês nessa árdua missão, mas lembra que o Brasil também exerce papel importante nesse sentido. Desde 2011, o País lidera a força marítima mantida pela ONU com o intuito de preservar a paz em território libanês. “É uma contribuição muito importante”.

 

DE PORTAS ABERTAS

Com relações fraternais históricas, até mesmo em função do vigoroso fluxo migratório da Ásia para as Américas, iniciado ainda no século 19, o Líbano tem as portas abertas para turistas brasileiras, conta Kadri.

O processo para liberação do visto é simples e a permanência em território estrangeiro, para essa finalidade, é autorizada por até três anos.

“Basta apresentar os documentos, como passagem de avião, passaporte e outras coisas básicas. É preciso também comprovar uma renda mínima para o turismo”, ressalta o embaixador.

Embaraços internos

Além da complexa geopolítica externa, as relações institucionais internas no Líbano não são de fácil compreensão sob o ponto de vista ocidental.

A semelhança com o Brasil está no grande número de partidos políticos: cerca de 30, a maioria de caráter familiar, dos quais apenas 11 possuem representação no parlamento, que, por sinal, elege o presidente da República.

“É difícil administrar isso. Os interesses são muito variáveis. Para a gente, é difícil entender que o País tenha fica quase dois anos, de 2014 a 2016, sem um presidente”, conta o embaixador Jorge Kadri. Além disso, um pacto definiu quais grupos étnicos-religiosos comandam cada uma das instituições estatais.

A Presidência da República ficava reservada a um cristão maronita; a presidência do Conselho, a um muçulmano sunita; e a presidência da Assembleia Nacional, a um muçulmano xiita. Ainda segundo o acordo, o número de lugares no parlamento atribuído aos cristãos seria de seis por cada cinco lugares atribuídos aos muçulmanos.

“Isso ainda não foi superado e gera algumas distorções. Um sunita que tenha o perfil nunca chegará à presidência, por exemplo. Mas, apesar de tudo, impressiona a capacidade de superação dos libaneses. Beirute já foi soterrada várias vezes e se reergueu. Não à toa que o país é chamado de fênix”.

Divulgação
Agradável para viver, Líbano tem território equivalente ao do estado de Sergipe

Relações comerciais devem se fortalecer

“As relações políticas, diplomáticas e culturais entre Brasil e Líbano são perfeitas, mas, quando se fala em laços econômicos, há muito o que se avançar”.

A constatação é do embaixador Jorge Kadri, que, desde 2014, trabalha na articulação de um acordo que permita diminuir as tarifas de de importação e exportação entre o país asiático e o Mercosul.

“A expectativa é de que, até o final de 2018, as negociações sejam concluídas. Isso vai permitir que produtos libaneses de muita qualidade cheguem até nós de forma competitiva”, explica, citando exemplos como vinho, azeite e frutas secas.

Os termos, é claro, valeriam de forma bilateral, embora o diplomata reconheça que o acordo será mais benéfico para o Líbano.

“Lá, temos um mercado de 4 milhões de pessoas. No Mercosul, são 320 milhões”, compara. Outra frente de atuação está na criação, também em 2014, do Conselho Empresarial Brasil-Líbano, uma importante plataforma que visa a ampliação de investimentos entre os dois países.

“O Líbano pode ser uma importante porta de entrada para o Oriente Médio e o Norte da África. E o mais importante: pode ser um canal importante para a reconstrução da Síria. Deixá-la do mesmo jeito em que estava em 2010 exigirá R$ 500 bilhões, diluídos em pelo menos dez anos”.