| Samantha Ciuffa |
| Entre as lojas de seminovos que registram aumento nas vendas com a crise econômica estão os brechós, como o de Aline Bonetti Rego e Jade Rego de Lima, no Bela Vista |
Quando um eletrodoméstico deixa de funcionar sempre bate a dúvida: consertar ou comprar um novo? Procurar uma loja de móveis novos ou uma de usados para comprar aquela mesa que a área de lazer está precisando? Investir em acessórios novos ou antes dar uma passadinha em um brechó para ver se o preço compensa?
Em tempos de crise, uma parcela considerável dos consumidores tem feito tais questionamentos antes de adquirir novos itens para a casa ou para uso pessoal. E se a opção (ou em muitos casos a única alternativa) for os objetos de segunda mão, especialistas e consumidores dão dicas para que o "barato não saia caro", o que vale tanto para as compras físicas quanto para o universo online.
Na visão da economista e coordenadora do curso de ciências econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Salete Aparecisa Rossini Lara, a compra de produtos de segunda mão pode afetar a economia positivamente no momento em que ela ajuda os consumidores que estão com a renda comprometida com outros gastos e precisam adquirir algum produto imediatamente.
Por outro lado, essa realidade pode prejudicar as empresas ofertantes de produtos novos, já que as suas vendas tendem a cair, o que reflete nas receitas e, por tabela, os fabricantes e vendedores tendem a diminuir custos, podendo gerar desemprego.
Sem prejuízo
"Para não ter prejuízo na hora de comprar um seminovo, o cliente deve considerar as condições em que se encontra o produto a ser adquirido, manuseá-lo na frente do vendedor para que todos vejam se o produto tem todas as suas funções intactas", orienta Lara.
Ainda segundo a economista, é preciso avaliar se o preço a ser pago realmente é atraente, pois os produtos novos podem ter descontos e, a diferença sendo pouca, é mais interessante produtos novos, pois possuem garantia de fábrica.
"Pela internet, o maior cuidado que se deve ter é com a idoneidade dos sites, o que pode ser checado com os depoimentos de usuários, por exemplo. Na internet não há possibilidade de manuseio do produto antes da compra, mas existem alguns sites de vendas que possibilitam a devolução caso o produto não atenda as necessidades do comprador, mas isso tem regras e o comprador deve ficar atento a elas", enfatiza.
Vai abrir um negócio de seminovos?
Para quem deseja abrir o seu próprio negócio de venda de seminovos, o conselho inicial da economista é, antes de tudo, avaliar se há um certo capital inicial para adquirir produtos usados para iniciar o comércio.
"Deve-se verificar se há concorrentes próximos, pois isso altera os preços das vendas ao consumidor final. Também é bom pesquisar se a região em que será aberto o negócio tem interesse neste tipo de comércio, para depois pensar em expandir para outras regiões", orienta.
Roupa seminova teve aumento
Jade Rego de Lima mantém um brechó no Jardim Bela Vista ao lado da mãe Aline Bonetti Rego há cerca de 15 anos. E o Brechó da Vovó é prova de que itens seminovos tiveram aumento na procura com a crise econômica nacional. Segundo Jade, o crescimento foi de ao menos 50% nos últimos meses.
"É bastante visível tal aumento. Com a crise, nem todos têm como comprar roupas novas. E oferecemos itens com bons preços e qualidade. Minha avó, Manoelina Bonetti, também está conosco desde o começo".
Ainda de acordo com Jade, a loja passou por uma reforma recente e, depois disso, começou a priorizar mais a qualidade do que a quantidade. "Já tivemos mais de 3.800 peças, entre roupas, calçados e acessórios. Depois da reforma, fixamos valores que vão de R$ 5 a R$ 25", grifa.
São confecções para o dia a dia e ocasiões que exigem traje social. Já o público do brechó varia entre donas de casa, que buscam peças para o cotidiano, e homens à procura de roupas sociais ou para o trabalho.
FÍSICA E VIRTUAL
Uma boa parcela dos clientes do brechó da família é fixa, assim como os fornecedores. Já a loja funciona na garagem da casa de dona Alice, na quadra 18 da rua Alto Juruá. E por falar nisso, foi com 10 peças do próprio guarda-roupas que a mãe de Jade começou o negócio. "Ela abriu a garagem, colocou uma cadeira e foi batendo rolo, como se diz. O negócio foi prosperando e já o temos há 15 anos", lembra.
E o segredo? Segundo mãe e filha é a qualidade das peças, simpatia e o bom atendimento.
"O resto a gente tira de letra", finaliza Jade. De olho nas oportunidades oferecidas pela tecnologia, elas alimentam uma página no facebook (www.facebook.com/brechodavovoonline), onde divulgam novidades e promoções.
'É preciso procurar por capricho e preço bom'
| Samantha Ciuffa |
| Organização, etiquetas e preços tabelados também ajudam lojas de seminovos a chamar a atenção do consumidor |
A dona de casa Adriana Maria Ferraz, 69 anos, é daquelas que não abrem mão facilmente de um bom eletrodoméstico para comprar um novo. Mas ela garante que não faz isso pensando em economizar, ao menos não é somente por isso.
"É claro que, na maioria das vezes, consertar algo fica mais barato do que comprar um novo. Mas a gente tem coisas em casa que têm uma qualidade bem maior do que os produtos que são oferecidos pela maioria das lojas hoje em dia", acredita.
A máquina de lavar de dona Adriana, por exemplo, apresentou defeito recentemente. Com a indicação de pessoas de confiança, ela foi até uma eletrotécnica localizada na região central de Bauru e pediu um orçamento que, segundo ela, é bem mais compensador do que comprar uma máquina nova.
"Eu tenho minha máquina há 30 anos. É daquelas fortes, pesadas mesmo. Vão deixá-la como nova e eu acho que vale a pena pagar o que pediram", comenta a consumidora que, de quebra, vai trocar diversas peças da geladeira, que também precisa de alguns ajustes, na mesma eletrotécnica.
"São peças legítimas do modelo da minha geladeira por um preço muito bom. Eu acho que as pessoas precisam pensar em economia, sim, mas fazer isso com consciência para não ter prejuízo. Minha dica é fazer como eu fiz. Procurar quem faz com capricho, é honesto e oferece um bom preço", finaliza.
Procura por consertos de usados aumenta até 30%
Vale a pena? Esta é uma dúvida bastante comum na hora de levar uma TV, uma geladeira, uma máquina de lavar, um micro-ondas ou qualquer outro eletrodoméstico ou móvel para um conserto ou reforma.
Com mais de 30 anos de experiência no ramo de consertos de eletroeletrônicos, o gerente da Do Lar Eletrotécnica (que fica na quadra 3 da rua Agenor Meira, na região central de Bauru), Sandro Renato Fabiano, comenta que, nos últimos três meses, aumentou em aproximadamente 30% a procura pelos serviços da empresa.
"No ano passado, o nosso trabalho teve uma queda significativa. Agora estamos nos recuperando bem". De acordo com o gerente, a casa, que atende com 45 funcionários, chega a receber mais de mil produtos para revisão e consertos por semana, de Bauru e região.
Além disso, ele dá dicas de como avaliar se vale ou não a pena mandar um equipamento eletrônico para o reparo.
"Primeiro, o consumidor precisa ver se o orçamento dos reparos necessários não ultrapassa os 60% do valor de um aparelho novo. Depois, é bom avaliar também a depreciação da peça. Está muito enferrujada? Algumas vezes pode não valer a pena mandar para o conserto. Outra coisa que é preciso ser levada em consideração é a qualidade do que se tem em casa, já que muitos produtos novos estão sendo fabricados para durarem menos", orienta.
PREVENÇÃO
A manutenção preventiva é uma alternativa para aumentar a vida útil dos eletrodomésticos e, com isso, economizar na compra de um novo, garante Fabiano. "Mas as pessoas só lembram disso quando o aparelho dá defeito. Com uma boa manutenção periódica é possível fazer o equipamento durar de 20% a 30% mais".
Alguns aparelhos precisam ter as correias e mangueiras trocadas, além de uma boa limpeza a cada seis meses, em média. "Isso falando dos aparelhos da linha branca, como a geladeira, a máquina de lavar..."
Já os aparelhos de ar condicionados precisam de limpeza todo mês, principalmente os usados em empresas.
MUDANÇAS
Com mais de 45 anos no mercado, a eletrotécnica onde Fabiano atua recebe de tudo um pouco: lava-roupas, refrigeradores, secadoras de roupas, micro-ondas, fogões e toda a chamada linha branca de eletrodomésticos, sendo a geladeira e a lava-roupas as campeãs.
Algumas peças estão expostas para a venda, mas o forte mesmo são os reparos e troca de peças. Ele mesmo já consertou de tudo um pouco.
"No passado, as pessoas davam mais valor às coisas, por isso a maioria mandava consertar. O consumidor também era mais fiel. Hoje tudo se tornou mais descartável. Isso passou a ser mais perceptível nos últimos 10 anos", lembra.
Crise na oferta de móveis de 2ª mão
Marli Pereira Greatti é gerente da Casa da Pechincha, loja de móveis usados para casa e escritório presente em Bauru há mais de 40 anos, na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves. Segundo ela, a crise não trouxe mais clientes para a loja, mas afetou de outra forma: reduziu a quantidade de produtos de qualidade que chegam até o comércio para ser repassado ao consumidor. "Estamos com menos opções de móveis. Se antes tínhamos de 3 a 4 mesas de granito, agora temos uma ou duas para oferecer aos clientes. Mas vender estamos vendendo a mesma coisa", comenta.
O que ocorre, segundo Marli, é que, com a crise econômica, as pessoas não estão comprando móveis novos e, com isso, também não estão vendendo os seus usados para as lojas especializadas, como a dela.
"Tá difícil da gente encontrar coisa boa de segunda mão para comprar. A matemática, no nosso caso, é a seguinte: se os novos estão saindo menos, os usados entram menos em nossa loja. Tínhamos fornecedores fixos que mudavam sua mobília todo ano e vendiam a usada para nós. Agora, não está sendo assim. O freio de mão está puxado", comenta.
Necessidade
Ainda de acordo com Marli, quem compra um móvel usado é porque está precisando, na maioria das vezes. "É por necessidade. Mas muita gente troca de móveis para mudar a decoração e nos repassa o usados. Assim funciona o negócio. Mas a nossa oferta hoje está menor porque os novos não estão saindo tanto", reforça.
A qualidade do que é oferecido também deu uma caída, comenta Marli. "Isso porque a qualidade dos móveis novos atuais não é boa como era no passado. A pessoa compra e, depois, para revender para uma loja de segunda mão fica difícil. Nós, por exemplo, dispensamos muita coisa porque prezamos pela qualidade, o que está difícil de achar. Vendemos o que já foi utilizado, mas que ainda está em boas condições", afirma.