08 de julho de 2026
Articulistas

O Brasil que dói

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Leio sempre que posso a opinião de jornalistas estrangeiros sobre os fatos recentes do Brasil. Às vezes eles se deslumbram com as nossas belezas naturais, o charme das mulheres e a magia do futebol, mas nunca deixam de demonstrar desilusões diante dos assuntos mais sérios, e que dizem respeito à nossa vida em sociedade. As nossas jabuticabas chegam a causar espanto. Pudera, só dão no Brasil. O correspondente do jornal inglês The Guardian expõe a sua dúvida mais cruel: "Será que este país tem solução?" Nós, brasileiros, também fazemos a mesma pergunta.

Existe uma escalada de violência em vários Estados, principalmente no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. O presidente Temer resolve o problema mudando o nome do Ministério da Justiça. Acrescentou "e da Segurança Pública". Pronto. Simples assim (a expressão de Eike Batista caiu no gosto popular). Mais uma jabuticaba no pé. As ruas de Vitória continuam servindo de cenário a arrastões e saques, porque os bandidos estão soltos e os policiais "impedidos" de sair dos quarteis porque meia-dúzia das suas senhoras barram o portão de entrada. Escolas fechadas, comércio de portas cerradas, ninguém sai às ruas, mais de uma centena de homicídios, bares e restaurantes não abrem, supermercados desabastecidos, a economia paralisada e a polícia exige 100% de aumento de um estado falido.

No Rio, o governador Pezão e o vice Francisco Dorneles foram cassados pelo TSE por uso de caixa dois na campanha política. O Estado já pena para receber socorro financeiro da União. Sem governador a situação fica mais dramática. Manifestantes protestam contra um projeto de privatização do Departamento de Água e Esgoto, lá deles. A repartição só dá prejuízo, serve mal à população e o Estado está na bancarrota, literalmente, precisando vender seus ativos. Os black blocs voltaram a adotar a tática do quebra-quebra e enfrentam a polícia com coquetéis molotov. A bagunça está se espalhando. Daqui a pouco chega a São Paulo.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, deve decidir nesta semana a guerra de liminares suspendendo e permitindo a nomeação de Moreira Franco como ministro Secretário Geral da Presidência da República. O objetivo de Temer é blindar o primeiro-amigo, citado 34 vezes nas delações da Lava-Jato. O apelido dele na lista de propinas da Odebrechet era "Angorá". Aquele gatinho de pelos sedosos. Segundo o Zé Simão, uma hora ele está no colo do Temer, outra hora se abriga no privilegiado foro do telhado. Dilma quis dar idêntica proteção a Lula. Barrado.

O STF virou mesmo o desaguadouro de todas as crises políticas e escândalos do país. Deveria ser um templo sacratíssimo, e de silêncio tonitruante. O ministro Luiz Edson Fachina, relator da Lava-Jato que ficou o lugar de Teori Zavaschi, determinou a abertura de inquérito contra os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá e o ex-senador José Sarney. Eles são acusados de obstruir as apurações dos escândalos da Petrobras. O ex-diretor da Transpetro, Sérgio Machado, fez seis horas de gravações com Renan, Jucá, e Sarney, onde eles demonstram intenções de barrar as investigações. Jucá chegou a dizer que era "preciso estancar a sangria". E de se firmar um pacto político "para cortar as asas da Justiça e do Ministério Público". Waaal!

Temer deu dois foras: ao fazer ministro a Moreira Franco, acusado na Lava-Jato, e ao indicar Alexandre Moraes, seu ministro da Justiça, para a vaga de Teori Zavascki, no Supremo. Moraes, na sua tese de doutorado defendeu que o presidente da República não deve indicar alguém que ocupe cargo de confiança no governo, para ministro da Corte. É o caso dele repetir FHC: "Esqueçam o que eu escrevi".

A Folha demonstrou que Alexandre de Moraes copiou trechos inteiros da obra de um jurista espanhol para apresentar-se como autor de um livro sobre Direitos Humanos. Para ser ministro do STF a Constituição exige "ilibada reputação" e "notório saber jurídico".

Será que um cidadão com esse currículo merece a vitaliciedade da Corte Suprema? Esta pergunta é mais fácil de responder do que aquela lá do início: "Este país tem jeito? "