08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Negros, brancos e jardins

Lázaro Carneiro
| Tempo de leitura: 2 min

Era uma  modesta residência de madeira nas ladeiras da Vila Santa Luzia, cujo alpendre acanhado descortinava o vale do Rio Bauru e a esplanada da velha estrada de ferro Paulista, onde destroços enferrujados denunciavam o roubo do patrimônio público e clamavam por justiça. Foi nesse cenário que ouvi de seu Jeremias uma interessante história de preconceito racial, ou não?


Seu Jeremias, um senhor negro de 96 anos à época, me contou algumas histórias do tempo em que era moço e trabalhava nas fazendas de café  na vizinha cidade de Jaú. Como é do conhecimento de todos, naquela cidade  o preconceito aos negros era tão explícito que no tempo que a juventude passeava  nas praças e marcava seus encontros nos jardins das catedrais a  sociedade branca criou um jeito inusitado de separar negros e brancos.


Para que jovens negros e brancos não se misturassem, foi criado o jardim de baixo, ou jardim dos pretos, muito simples, sem projeto paisagístico e em lugar distante do jardim de cima, dedicado à elite branca, que era a praça principal da cidade na região central, rodeado de casarões dos barões do café. Esse jardim ornamentava a imponente e suntuosa igreja matriz, tanto a praça como a catedral ostentam  desde  a origem sofisticado projeto arquitetônico com monumento ao ar livre e obras de arte no interior da igreja.


No início  do século passado, o jovem Jeremias morava com seus pais na fazenda Indiana, o proprietário, um alemão muito reservado e de pouca habilidade com a língua portuguesa, que ele chamava de língua brasileira, pois não admitia que  Portugal, tão pequeno e insignificante, conseguira colonizar tanta terra e gente.


Mesmo sem conhecimento teórico no campo da música, o jovem Jeremias era habilidoso na sanfona e tocava nos bailes da região, isso lhe dava o privilegio de fazer grandes amigos e amigas, o negrinho boa praça era unanimidade entre os jovens negros e brancos.


Mas o grande amigo de Jeremias era o alemãozinho Frider, assim chamado por todos, possivelmente uma redução de Frederico. Aos domingo à tarde, os dois jovens apartavam-se da rapaziada da fazenda e rumavam para para Jaú,  cobrindo a pé uns quatro quilômetros que separava a cidade e o estiloso casarão da sede da fazenda Indiana. Chegando na cidade, os jovens se separavam, Frider ia para o jardim de cima, ou jardim dos brancos, e Jeremias ficava no jardim dos pretos, o jardim de baixo. Ao se separarem, já  ficava combinado que ao ouvirem o sino da matriz assinalando determinada hora partiriam para reencontrarem-se naquele mesmo lugar e dali partirem de volta à fazenda.


Apesar da convivência, carinho, respeito e da amizade entre ambos, a sociedade lhes impunha valores mesquinhos que os obrigavam a manter a aparência preconceituosa, um no papel de vítima e outro no papel de algoz.