10 de julho de 2026
Articulistas

Deixai toda esperança vós que entrais

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

"Os níveis elevados de consumo não se traduziram no aprimoramento da qualidade de vida subjetiva. O país está tomado de crimes e as autoridades parecem impotentes, mostrando-se indispostas ou incapazes de fazer algo quanto a isso. Todo dia chegam até nós relatos do grotesco insucesso do sistema de justiça criminal. Reuniões corriqueiras de cidadãos assumem um timbre cada vez mais agressivo. O oficialismo interfere na vida diária de modo cada vez mais impertinente, ao mesmo tempo em que a administração pública parece ser uma máquina gigante que só tem sucesso quando se trata de cobrar impostos das pessoas, sem devolvê-los na forma de serviços melhores ou de infraestrutura.. O cidadão direito, resoluto e independente tornou-se neurótico, dependente, assustado e encarquilhado. O Estado é experimentado como uma força destruidora que não pode ser detida e que não mais se encontra sob o controle de alguém. Políticos de todas as estirpes são tratados como mentirosos e carreiristas ex ofício, e o cinismo referente a toda motivação oficial impera. Nenhuma explicação oficial recebe crédito, enquanto a honestidade, a franqueza e a confiança se tornaram sintomas de ingenuidade e falta de sofisticação. Todos esses traços são imagens espelhadas daquelas virtudes que, há não tanto tempo, constituíam as virtudes do país."

Já viu descrição tão precisa sobre o Brasil? Só que essa é a situação da Inglaterra, comentada por Theodore Dalrymple no livro "Não com um Estrondo, mas com um Gemido - A Política e a Cultura do Declínio". Outra semelhança está quando ele diz: "A Grã-Bretanha sofre de um grande mal, um mal que faz com que ao menos metade de sua população prefira viver alhures. Enquanto as pessoas, no intuito de ganhar dinheiro, acorrem da Europa Oriental, da África, do sul da Ásia, do Oriente Médio e da América do Sul, grande parte da população que ali já vive procura mudar para a América do Norte, para a Austrália e para o Mediterrâneo."

Quantos brasileiros, também, deixam ou pretendem deixar o Brasil? E quantos estrangeiros querem vir? Isso também acontece com as cidades, é o que ficou conhecido em expressões como esta: "o jardim do vizinho sempre está mais florido".

Não é condenável que uma pessoa queira tentar melhores condições de vida em outro lugar. Mas cabe observar que as condições de vida de um povo, boas ou más, não são fruto de ações individuais, mas de ações em conjunto, da sociedade. É a sua vontade que a faz, através do tempo, ser estacionária, evoluir para situações melhores ou até a regredir. Da sua vontade é que se estrutura o Estado que irá governá-la e a escolha das pessoas que irão ocupar os poderes de governança. De sua vontade, também, é que poderá ser mais ou menos inclusiva, dando oportunidade de ascensão social aos seus cidadãos e recebendo bem os imigrantes que a procuram para tentar construir uma nova vida. Foi assim que as nações que hoje desfrutam de melhores condições de vida evoluíram, a ponto de se tornarem desejadas por aqueles que não se sentem bem onde estão.

Adam Smith, pai da economia moderna, escreveu que a riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes. Por essa afirmação fica claro que a nossa riqueza não é a dos dez mais ricos do Brasil, pela classificação da revista Forbes, mas por tudo que o povo produz. Como quem dispõe do uso dessa riqueza em benefício do povo é o próprio povo, através de seus representantes, porque vivemos num regime democrático, se não estamos bem a culpa é nossa pela má escolha que fizemos de nossos representantes. Querer fugir daqui para garantir o futuro de nossos filhos e netos não é a atitude correta, se queremos o bem deles, mas a de prepararmos uma sociedade melhor para eles, apoiando as medidas, como a Lava Jato, que estão afastando dos poderes os maus representantes e, na próxima eleição, votarmos colocando o bem de todos em primeiro lugar.

Não estamos falando como se fosse coisa fácil, mas pensando como é difícil que as pessoas sacudam o ranço ideológico e controlem os interesses corporativos, para que as mudanças se tornem viáveis. O país afundou-se em crise econômico/financeira pelo descontrole dos gastos e pela corrupção instaurada nestes últimos quinze anos. Veja a luta para afastar os ocupantes dos poderes e, agora, para fazer as reformas. Ninguém, de mente esclarecida e bom senso pode negar a necessidade de conter os gastos, de reformar a Previdência, para garantir as aposentadorias futuras, de rever a CLT, para facilitar a criação de empregos e enfrentar o desemprego tecnológico e, no entanto, há políticos que não se envergonham em se postar frente à televisão e dizer: eu sou contra, meu partido é contra.

O que eles querem? Que o Brasil volte às mãos daqueles que o arruinaram? Isso condenaria as futuras gerações a encontrar em seu berço o alerta que Dante colocou na porta do Inferno: "Lasciate ogni speranza voi ch'intrate." - Deixai toda esperança vós que entrais.