A folia 2017 foi precedida por polêmica sobre marchinhas. Muitos levantaram a bandeira de que músicas como “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão” deveriam ser banidas. A discussão foi parar no jornal americano “Washington Post”. João Roberto Kelly, autor das duas aí citadas, obviamente acha um exagero. “Nunca tive a intenção de ofender”, disse ao jornal “Extra”.
O colunista Ruy Castro também é contra o boicote a marchinhas que, 40 ou 50 anos depois de compostas, podem soar mais “inadequadas” ou “politicamente incorretas”. Já Caetano Veloso foi... Caetano Veloso. “Sempre detestei ‘A Cabeleira do Zezé’ por causa do refrão ‘corta o cabelo dele’, que é repetido como incitação a um quase linchamento. Mas não tenho vontade de proibir nada.”
Outra controvérsia que ganhou força por esses dias foi a crítica aos blocos de rua por causa da sujeira que fatalmente produzem ou o transtorno que geram no trânsito. Nesse particular, contudo, a solução parece ter ligação direta com planejamento e combinação.
Ora, se um bloco passará por várias ruas e desembocará em local de grande concentração de pessoas, alguém da organização ou do poder público precisará providenciar lixeiras adicionais ou algo parecido. Que conversem entre si e reduzam o acúmulo de sobras e afins no momento da dispersão. Tudo isso para dizer o seguinte: vamos relaxar um pouco. Não é um verso composto há décadas, e cantado por gente feliz, que vai propagar o ódio discriminatório para toda uma geração. E nem mesmo o lixo de um dia meio louco será capaz de emporcalhar a cidade para todo o sempre.
O Carnaval mais forte nas ruas, e que seja com as marchinhas do passado, é algo legal, festivo e democrático. Efeitos colaterais sempre ocorrerão, mas não devem suscitar tanta gritaria. Carnaval é um estado de espírito que ganha corpo. E corpo, por vezes, exagera em seus ímpetos ancestrais.
Perdoável e reprogramável. O ano todo já é de cinzas. E o fogo do Carnaval é mais para aquecer a vontade de transbordar em público. Logo, teremos as ruas limpinhas e sem marchinhas. Ou seja: logo, tudo volta ao tedioso normal. Até lá, relaxemos um pouco, meu povo.
O autor é editor executivo do JC