| Aceituno Jr. |
| NA CARTOLA - Juliana Soares, em primeiro plano, a mestre “viciada no Carnaval”; o destaque e ‘faz- tudo’ Leandro Barbosa ajuda na preparação das peças e Luciana da Silva, costureira, que só parou para ir ao hospital onde seu neto nasceria |
Quando a gente fala que quer fazer uma reportagem sobre os que trabalham (e põe trabalho nisso!) muito, madrugadas adentro, em prol do Carnaval de rua, o aposentado Cristiano Corral exulta: “Ah, ainda bem que alguém vai se lembrar dos anônimos, porque ninguém valoriza quem trabalha no pesado”.
Afinal, muita gente que aprecia o desfile das escolas de samba (e dos blocos também!) não pensa em quem está elaborando as peças do carro alegórico, de tal forma que, cada parte somada, vá resultar no falcão, ave-símbolo da Mocidade Unida da Vila Falcão. Justamente onde Cristiano trabalhava na semana passada, polindo e lixando a cabeça da ave, para deixá-la harmônica.
Um verdadeiro trabalho de artista plástico, coisa que o Cristiano nunca foi. “Nada disso, sou aposentado do DAE. Nunca pensei que faria isso, mas comecei lá no início dos anos 90, em outra escola, e hoje, com mais de 60 anos, estou aqui fazendo tudo o que me pedirem. O pessoal projeta, vai dando as dicas e eu executo”, explica. Aliás, não só ele. Cristiano Corral lembra que toda a família Corral está envolvida. Ele tem um irmão que também trabalhava na mesma hora do barracão da Mocidade. E tem mais a mulher, envolvida com o bordado das fantasias. E cita mais o filho, que vai desfilar, e uma dúzia de amigos envolvidos na preparação. Todos anônimos. Todos põem mesmo a mão na massa. Alguns deles, como o próprio Corral e a mulher, ainda estavam na expectativa (a escola estava programada para entrar no sábado) de desfilar fazendo parte do setor de Harmonia da escola.
| Samantha Ciuffa |
| NA MOCIDADE - Cristiano Corral dá forma ao falcão que estaria no carro abre-alas: a família inteira participa |
| Aceituno Jr. |
| NA COROA IMPERIAL - O destaque da escola, Michel Miguel, ajuda na hora de bordar a própria fantasia e nas dos demais, ao lado da assistente Michele de Oliveira |
Na Harmonia estão aqueles trabalhadores que, quase sempre uniformizados, com a camisa da escola, cuidam para que os que desfilam não dispersem, não demorem entre uma ala e outra para não criar um vazio na avenida, que ocasionaria perda de pontos para a escola. Isso sem falar que eles têm que ficar de olho nos carros alegóricos. Imagina se algum carro quebra na passarela? Por isso, todos eles têm mecânicos de prontidão. Ah, não falta o “faz-tudo” e, claro, as costureiras de plantão, para o caso de um destaque perder um pedaço da fantasia.
E tudo é feito às vésperas, numa correria que nem dá para acreditar. O entra e sai no barracão nos últimos dias é espantoso. Para conseguir falar com Corral, só por telefone e, ainda assim, ele estava entre o vai-e-vem de caminhões para levar o que estava pronto para o sambódromo. Isso na sexta-feira de manhã. “Uma vida corrida, mas uma correria gostosa!”, sentenciava.
Costuras e higiene mental
A poucos metros do Sambódromo, na avenida das Laranjeiras, no Geisel, reduto da Coroa Imperial da Grande Cidade, o povo da escola também trabalhava, mergulhado no pó do gesso que iria compondo a estátua de um tigre de bengala e, a poucos metros, duas mulheres colavam lantejoulas em fantasias. Aliás, nesta época do ano um dos objetos mais procurados é a pistola de cola quente, uma ferramenta mais do que essencial.
A proximidade com o sambódromo só ajuda no transporte. No mais, o trabalho é o mesmo. E sempre tem alguma coisa de última hora para ir buscar. Era o caso de Michele Regina de Oliveira, a responsável pelo barracão, que nos recebe entre uma saída e outra.
Enquanto ela vai e volta entre o barracão e a casa de dona Maria de Souza, filha de dona Olívia, a mulher que escolheu o nome da agremiação e em cuja garagem da casa está o QG da Coroa, ficamos sabendo que Maria considera o trabalho das bordadeiras uma verdadeira “distração e higiene mental”. “Aqui a gente conta piada, dá risada, mas, claro, a mão não para. É falando e colando”, diz bem-humorada.
Ao seu lado, outra voluntária que, no entanto, não quer ser identificada. Tudo porque o marido tem ciúme do amor que ela dedica à escola. “Desfilar? Nem pensar. Mas eu me realizo vindo aqui e ajudando nas fantasias”. E gosta tanto que ainda se sente injustiçada pelo desfile do ano passado. “Não merecíamos o terceiro lugar, éramos, no mínimo, segundo”, diz, antecipando que a escola vai estar melhor ainda (apesar da crise) na noite de hoje, no Sambódromo.
Um vício, uma paixão
No barracão da Acadêmicos do Cartola, na quinta-feira, sob um sol de 33 graus, a correria, o trabalho e a euforia com a expectativa do desfile (que foi no sábado) não era diferente também. As voluntárias Maria de Fátima e Maria Lúcia Silveira da Silva estavam a postos, só parando para tomar água, colando as fantasias e trabalhando com o maior prazer. “São 40 anos de Cartola e com a gente não tem tempo quente, não”, dizia Maria de Fátima.
Ao lado delas estava a psicóloga Juliana Soares, mestre em ciência e tecnologia e sociedade pela Unesp-Bauru, que nem na hora de ser fotografada conseguiu parar. “Tive que atender ao telefone, sempre há alguém solicitando alguma coisa e o tempo está curto demais”, desculpou-se ela, que neste Carnaval tornou-se a assistente do carnavalesco. Nascida em Marília, Juliana considera-se bauruense. “Cresci aqui.” Desde o final de 2013 está inserida nos eventos carnavalescos. “Não esperava, mas virou um vício. Acho que a pessoa não pode se tornar voluntária, porque não tem jeito, depois que entra nesta festa livre, maravilhosa, com uma criatividade e solidariedade incríveis entre as pessoas, não consegue mais parar”.