O texto que se segue trata-se apenas do relato resumido de alguns fatos da vida como ela é no Brasil de hoje - tão comuns que só aguentaram ficar no noticiário por alguns minutos, logo superados por outros de maior interesse. Esses fatos consistem no seguinte: durante todo o ano de 2016, imortalizado por heroicos combates jamais travados contra a corrupção no Brasil, algumas dezenas de cidadãos metiam loucamente a mão em dinheiro público da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, desviando verbas de bolsas estudantis, onde o juiz Moro, em pessoa, é professor de processo penal na Faculdade de Direito da infeliz universidade roubada.
O roubo começou em 2013, bem na cara do Ministério Público, da Justiça Federal e da polícia. Conclusão prática: após todo este tempo de Lava Jato, das denúncias, prisões e condenações das maiores estrelas da corrupção nacional, e apesar da vizinhança física da força tarefa anticorrupção, o medo que os corruptos têm de ser punidos é igual a zero.
Para eles, não está acontecendo nada de diferente no Brasil. É como se o juiz Moro, o promotor Dallagnol e tantos outros da Operação Lava Jato estivessem despachando do outro lado do mundo.
É bom deixar claro que as ações anticorrupção comandadas a partir do Juízo Federal de Curitiba compõem, possivelmente, a decisão mais acertada que o Poder Judiciário brasileiro já tomou em toda a sua história. É um fenômeno excepcional, porque passou a punir de verdade um tipo de crime que na vida real não era punido no Brasil. Alem disso, mandou para a cadeia gente que jamais alguém imaginou que pudesse ser presa neste país.
Quando aconteceu algo parecido? Devemos aplaudir todos os dias a Lava Jato. Tudo bem - mas, sinceramente, em matéria de diminuir a corrupção, só a Lava Jato não adianta mesmo. Nem se diga acabar com a roubalheira, pelo que ficou demonstrado na Universidade federal do Paraná, não está dando nem para diminui-la um pouco.
Dá para acreditar? O que impressiona é a cegueira de um país em que milhares de magistrados e milhões de cidadãos acham possível eliminar a corrupção sem reduzir ao mínimo indispensável o tamanho do Estado brasileiro - e as oportunidades que ele oferece diariamente para ser roubado, da construção de refinarias a bolsas de estudo. Não somos roubados porque estão faltando leis.
Somos roubados porque a máquina pública convida os ladrões a roubar, temos que ter ética ao votar e escolher quem tem ética, e trancar o cofre do Estado diminuindo a sua presença na nossa economia. É com medidas concretas dos eleitores (como por exemplo pressionar o Congresso para votar no sistema eleitoral distrital) que a Lava Jato terá mais eficácia e a indiferença e a impunidade dos políticos não serão mais as mesmas.